Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

26 de junho de 2007

A magia Clara.


Ela saiu do banheiro sem se secar, nua, a passos trêmulos, cabelo chanel cobrindo os olhos, viu a silhueta de alguém andando no outro lado do quarto, parou, olhou e se aproximou do espelho observando a estranha figura. Corpo magro, seios pequenos, quadril reto, parou a um metro da superfície, olhou a massa parda do outro lado e ergueu o braço lentamente até que seus dedos encontrassem os dedos que vinham de lá. Entre os fios úmidos no rosto lágrimas surgiram no lado de cá sem serem notadas. Mal sabia ela porque, águas vinham e iam sempre.
- Clara venha jantar, estamos esperando.
Sem muito pensar ela foi ao armário, pescou as primeiras peças do pijama, enxugou o cabelo e os olhos, deu uma sacudida na cabeça e foi para a sala. Estavam todos lá, pai, mãe, avó tia e primo.
- Oi, oi gente.
- Oi Clara, que cara é essa minha querida. Você está muito diferente hein. Sentenciou a tia.
Sem respostas, todos à mesa comeram e falaram besteiras sem sentido, do vô que morrera a pouco, do Sanches que estava com algum problema e iria morrer a qualquer momento, sob observação no veterinário.
- Ele era tão companheiro – falou a mãe de Clara com a voz um pouco embargada.
Nada do que diziam parava por um instante na cabeça dela. Pensamento escuro, perdido naquilo que ela não sabia o que era. Toda a família, a cena, a peça eram de fato um zunido para aqueles ouvidos. Sem mais uma vez falar, ela se levantou, levou sua louça para a cozinha, lavou olhando para as luzes dos prédios a frente, uns pertos, outros longínquos, outros não dava pra ver. Voltou, deu boa noite e sem resposta foi para o quarto. Trinca passada, pijama tirado, ligou o som programado no CD do Colle Potter, pegou o cigarro escondido na gaveta, acendeu, ligou o computador e foi para a janela.
Talvez a hora mais gostosa do dia, o vento que batia na janela do quarto, gelava sua pele e a fazia sentir a fumaça invadindo os pulmões e saindo como o próprio pensamento. Olhava a escuridão pontualmente iluminada de tantas janelas e tantos lares sem se importar com sua pobre nudez.
Pluuup! O mesenger chamou alguém, ela foi. "OI Clá", "Olá Moço". Rodrigo era um amigo que pouco conhecia, um outro que não fazia nada no sábado à noite. Conversas bobas, vazias, nada que arrancasse um sorriso daqueles lábios petrificados. Saiu, deixou o moço só, deitou no puf ao pé da janela, mais um cigarro, o corpo relaxado. Recostou a mão sobre o peito, acariciou o busto com delicadeza. O piano no som ecoava no ambiente e seus dedos tímidos descobriram a umidade do colo. Em silêncio contorcido, mais um arfar se abafava no vento da rua. O corpo amoleceu estendido e logo se encolheu. As mãos antes fortes se voltaram para o rosto, o pranto desceu vertiginosamente, soluçante Clara adormeceu.
O dia nublou na pele de Clara, nublou no capô sujo dos carros, nublou nas sacolas de feira das senhoras, nublou no cigarro do taxista, nublou no topo dos edifícios, no cabelo das crianças. Nublou, e entretanto fazia um bonito sol. O vento fez com que ela acordasse para fechar a janela. Ela meio tonta levantou e fechou de um golpe só o vidro, apoiou a testa, varreu os prédios cinzas e viu bem de fronte, um andar acima, uma mulher de calcinha e sutiã na sacada, com uma xícara na mão e algumas bolachas Maria na outra. Olhava fixamente para o quarto de Clara, os olhos se encontraram, nenhuma das duas figuras desviava o olhar até que um homem de bermuda veio de dentro do apartamento colocando-se do lado da mulher. No mesmo instante o telefone tocou.
- Oi Clá! É o Rodrigo, eu to aqui na frente do seu prédio, preciso falar com você.
Clara colocou um conjunto de moletom, um chinelo e mesmo descabelada e com sono saiu. Todos estavam dormindo na casa, na ponta dos pés ela foi.
Rodrigo estava encostado no carro, eles se cumprimentaram, Clara já perguntando o que acontecera.
- Entra no carro, já te explico.
Eles entraram no carro, ela já com medo e ele muito nervoso.
- Clá, preciso da sua ajuda.
- Que foi? Que que aconteceu?
- Eu...eu – ele tremia – eu fiz uma cagada e não sei o que faço.
- Mas o que que você fez meu deus?
Fez-se uma pausa, ele estava muito tenso, olhou pra ela com os olhos vermelhos:
- Eu matei um cara Clá! Eu descumpri o trato, o grupo veio falar comigo, eles me ameaçaram, eu fiquei com medo, num sei, saí com tudo e passei por cima do Rômulo, agora eles tão atrás de mim, eu preciso de ajuda.
Ela nem respondeu na hora, ficou apenas confusa, não tinha a menor idéia que aquele sujeito meigo, que volta e meia conversava com ela na internet pudesse matar uma pessoa. E o que era esse grupo? O tal do Rômulo? Trato? As coisas estavam muito sombrias, incógnitas, não era possível naquele momento tirar nenhum tipo de conclusão palpável.
Durante um tempo o silêncio reinou no carro que andava devagar. Clara conteve o desespero, não conseguiu pensar em nada. Pelas conversas que tivera com o rapaz tinha a nítida impressão de ser um bom sujeito, carinhoso, inteligente e bem humorado. A situação ainda estava semi-exposta, algo muito grave acontecera e por algum motivo o peso do futuro do moço quase desconhecido caíra em suas mãos. Independente do caso ou qualquer veracidade apresentada, naquele instante ela era a pessoa que podia ajuda-lo. Sabe-se lá por que motivo ele a procurara, sabe-se lá porque motivo eles se conheceram, ou porque estavam vagando num carro velho, a única coisa que ela sabia era que havia de encontrar uma solução. Uma gostosa sensação de perigo tomou conta de Clara. Algo tão inesperado, alguém tão desconhecido, uma vida tão monótona.
- Vire a esquerda aqui – ela cortou o silêncio – tive uma idéia.
.
.
Continua no texto acima

18 de junho de 2007

Rolo do tempo


Prefiro que diga:
- Salte do trem.....
...e faça figa

Passado é o trem
E o futuro

treme
Presenteado desliga.


Pego esse futuro
furo

Dou uma mordida
..............Bebo seu céu

para te entender
amiga

No passado do trem
ou nos trilhos da vida.


12 de junho de 2007

Um poeta a caminho del sol

Estes versos simplórios foram feitos em homenagem a um amigo chamado Itamar, que neste momento começa sua viagem de ônibus, trem e mochila rumo ao Peru para visitar sua noiva. A viagem será acompanhada pelo diário online em seu espaço no link aí do lado. Boa viagem Itamar...reticências infinitas para ti...estou com uma puta inveja..rs.




Um poeta a caminho Del sol


Estreita distância de montanhas.
.............................................
.............................................

Brasil.....................................
.......................Bolívia.............
Peru.......................................
.............................................
.............................................
Viaja o sonho..........................
Corre os trilhos,.......................
rasga as letras........................
.............................................
.............................................
Escala a terra na saudade.........
...Busca o Mundo.....................
....................Os olhos ............
................................O outro...
......................O fundo ...... ..
..........A brisa ........................
..Abraço..................................

.............................................
Laço.......................................
.............................................
Lágrima..................................
.............................................
.............Felicidade..................

11 de junho de 2007

O Baú



Baú

Tu és um mistério a ser descoberto.
Esmeralda rara num baú trancada;
Em baixo da areia, em cima do nada.
À espera do viajante certo.

Eu, casualmente cravei a enxada;
Quebrei a tampa, cheguei perto,
Busquei teu peito no baú aberto
Mas via a chave na tua mão cerrada.

O teu descompasso superei imune;
Descobri no brilho desta noite clara
O destino, a noite e o brilho que me pune;

Pois os acasos que esta vida encara
Conduzem às vezes ao que nos une
E quase sempre ao que nos separa.

8 de junho de 2007

O caso e o descaso de Giba.

Este texto foi escrito para o concurso literário da Revista Piauí. Ele tinha que ter 3 mil caracteres (com espaços) e ser desenvolvido a partir da frase "Ele implicava com os leiloeiros, apreciava mais os falsários". Conta, em 2999 caracteres o caso do detetive Giba. Acompanhem também o texto "arte e a preço" escrito pelo Caçula a partir da mesma frase. Blog do caçula aí no link ao lado. Boa leitura.
______________________________________
O caso e o descaso de Giba

Giba estava no seu bar oficial à paisana quando o segurança de um fazendeiro poderoso da cidade o abordou. O caso era descobrir se dois dos homens de confiança da fazenda estavam falsificando documentos antigos para vender a colecionadores. “Tá aí um bom caso” pensou o boêmio detetive. Aceitou. Não parecia muito difícil, afinal o método utilizado por Giba era bem simples: mapeamento de bares – bares – amizades – abordagens – pessoas bêbadas - obtenção de respostas. Ele conhecia todos os botecos e restaurantes da cidade, assim como os chapeiros, cozinheiros, metres, garçons, gerentes, donos e afins. Acertou os custos e iniciou o procedimento. Nome dos suspeitos: Zé e Carlos; nome do bar: Os Leiloeiros; freqüentador: Zé; Rotina: quintas feiras; hora: oito. Com as informações obtidas Giba partiu para a ação.
- Fala Pelé! Cumprimentou o barman – Vê uma gelada pra mim.
Sentou no balcão, do lado da mesa na qual Zé e o capataz da fazenda conversavam. Deu um trago, virou e ouviu:
- O Carlos!! Puff, você não sabe o que ele me contou! – disse Zé inclinando o corpo para frente.
- O que? - O capataz inclinou o corpo também. Quase que Giba faz o mesmo.
- Que na verdade, ele implicava com os leiloeiros, apreciava mais os falsários.
O capataz passou a mão na cabeça, curvou a sobrancelha e nada disse. Giba ficou confuso, aquilo não fazia o menor sentido para ele. Implicava com o leiloeiros? Mas porque ele implicaria com o bar? Será que eram leiloeiros que compravam os documentos antigos? Eles eram os possíveis falsários, como se apreciavam? Existiam mais? Apreciar era um código? As dúvidas deixaram Giba, inquieto, não conseguia ligar os fatos. Parou, virou, decidiu partir para a o plano B, seguir. Pediu mais uma cerveja e esperou que fossem embora. Quando os homens saíram Giba viu que os eles olharam para os lados antes de entrar no carro. A certa altura do caminho, as ruas estavam vazias e só havia dois carros andando. Giba estava tão alucinado pelas dúvidas que nem percebera o risco de perder a missão. Sorte que os rapazes não o notaram.
No bairro das jardineiras eles pararam. Giba continuou e parou depois da esquina, desceu do carro e encostou num poste. Os homens olhavam desconfiados a toda volta, foram juntos até o porta mala abriram. Zé tirou uma mochila preta de lá, abriu o zíper e sacou uma garrafa. Abriu a tampa, cheirou e deu para o capataz. Giba se aproximou fortuitamente do carro ficando atrás de uma árvore, tenso, o suor lhe descia a costeleta. O capataz segurou a garrafa e deu um gole. Enquanto bebia, Zé gesticulava:
- Que que você acha? Os leiloeiros tem fibra, onde já se viu um licor caribenho, artesanal, raro desse ter fibras. Vê se os falsários tem! É muito melhor, agora você quer cobrar o mesmo preço nos dois! Que é isso!
Giba não quis nem ouvir a resposta, ficou possesso, saiu de trás da árvore praguejando sem se preocupar com os apreciadores de licor, foi direto pro bar oficial e abandonou o caso.


6 de junho de 2007

Soneto - Rotina

Rotina


Continua o sonho, a vida...continua...
O mesmo frio, o mesmo tédio. As madrugadas
Vão ficando extensas, a fala tão nua;

E os tragos descem a cavar estradas.

Vem aí outra loucura...e vem com a sua
Timidez fingida e explosões regradas.
Desabafo cego ao sair pra rua.
Confissões solitárias nas calçadas.

Triste a casualidade desta vida!
Que aponta o rumo, mas não a saída.
E me faz seguir, para lá longe, perceber...

Que o maior erro do passado certamente,
foi sonhar alguém e esperar inutilmente
um possível norte para viver.



4 de junho de 2007

Soneto - Perdido

Perdido


Ando perdido neste mundo escuro,
Breu de praia, de relva, de sorriso incerto.
Turbilhão de fatos, escolhas mortas sem futuro.
Metas cegas e certezas férteis no deserto.

Encaro, com temor, o destino bem de perto.
Beiro à margem de outra lágrima e juro;
Que na vida o medo mais latente e mais duro
Por mim encarcerado será por mim liberto.

Perdi-me nos olhos negros da incerteza,
Cujos sinuosos rumos costuram outras vidas
Descobrindo histórias, versos e segredos.

Perdi-me nas escadas de minha própria fortaleza,
E o único fim no caminho de corredores e subidas
É o fúnebre encontro dos meus medos.



O lado de dentro...sublime

O lado de dentro...sublime