Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

28 de abril de 2008

E as rosas sorriem...

Olhar uniforme....vermelho.... por sobre as rosas.
Silêncio, vento, balançar suave.
Distância paciente da maré de dentro.
perguntas de dentro.
Os espinhos perfurando dos lados
Os espinhos perfurando dentro.

Um dia, um poeta espetado chorou.
- As rosas são tristes.
A rosa lhe sorriu de volta.
Embora sorvesse seu sangue.

Firmando sobre terras turvas
Pulam os homens
- que lindo! Quantas rosas..parece um mar vermelho.

Vermelho é. Vermelho permanece
E a rosa ri. Seu riso é dor.

Nas ondas, nas minhocas, nos pulgões
Nos espinhos.
As rosas sorriem.
Lhe vêm a foice e as rosas sorriem,
A declaração de amor acompanha um riso.
O choro acompanha o riso.
O quarto acompanha o riso.
O silêncio na cama acompanha o riso.

A turgescência acompanha o riso
As pétalas caem, cai o riso.
Resta o galho...seco...áspero.
Esturricado.
Velando a cama lisa.

11 de abril de 2008

Vendo cigarro, R$0,10! Masso R$1,50

Não era uma avenida movimentada, nem mesmo uma rua comercial. Não havia pessoas dispostas a comprar nada e, as poucas que havia, passavam rápido mirando a sombra no chão. O que dizer lá de dentro? Não havia sequer pessoas com dinheiro para gastar. As poucas moedas que existiam dentro daquele lugar, com pouco mais de cem pessoas, estavam perdidas em bolsos duros, sujas em cada ranhura, raspadas, deformadas e, ainda assim, eram moedas. Apanhadas por mãos tão grossas quanto a sola do pé, tinham em si os olhares mais distantes.

Albergue municipal, dizia a placa grande. Vendo cigarro R$0,10! Masso R$1,50, dizia a pequena. E o dono desta esnobava em dizer que não havia necessidade de uma placa para pessoas como aquelas. Ele, mesmo se alimentando e repousando diariamente naquele albergue, terminava o café mais cedo e saía para “trabalhar”, um passo a frente e lá estava ele na porta do lugar diante da fila de pessoas. Umas descalças, outras bem vestidas, desempregados, bandidos, homens de bem, mulheres grávidas, negras e loiras de pés imundos, cachorros nas carroças, crianças despenteadas com ranho nas blusas manchadas.

O homem abriu um banco de sacola de feira, sentou na porta do albergue e cruzou os braços com um leve sorriso no rosto. Olhava, olhava, fitava cada pessoa da fila. Todos cabisbaixos, expostos aos olhares perfurantes dos transeuntes, conversando baixo, inebriados num silêncio imposto por algo. Aquele ser ficava ali com sua placa, barba rala, gordo, pele oleosa, um boné da caixa econômica federal salpicado de cândida, blusa de lã furada, havaianas nos pés com unhas encavaladas, marrons e porosas, cascas pretas entre os dedos e, ainda assim, cruzava os braços e ria.

- Até a praga no mato precisa terra seu doutor – foi a resposta que deu a um senhor politizado que veio lhe indagar sobre arrancar o pouco dinheiro que aquelas pessoas tinham. O silêncio do doutor significou compreensão – essa é a vida doutor! Eu tô aqui porque tem gente que tá lá! (apontava a fila) E elas qué comprá.

Nada que o Pobre doutor dissesse teria efeito ou sentido. O gordo ria em êxtase silencioso, lábios em U, cabeça baixa. Fitava novamente a fila e ria. Não havia por que rir, e Ele ria. Não havia ninguém comprando, e Ele ria. Não havia sistema operando, e Ele ria. Não havia sequer cigarros.... e....
.................................................................Ele
..............ria.

17 de março de 2008

Repulsa

Chegou em casa, jogou os cobertores no lixo, os lençóis, as fronhas; livrou-se do cheiro acreditando transgredir o esquecimento...revolucionar o espírito. Esqueceu-se, entretanto, que a cama não mudara, tampouco o quarto ou mesmo sua vida. Não havia revolução alguma, não havia esquecimento. A presença ali, o registro estático daquele lugar em suas retinas provocara o oposto de sua intenção, uma dolorosa e perturbadora dor. Havia dor.

Deitou-se. Olhos abertos para o teto, cheiro de amaciante no lençol trocado, pele alva, nua e trêmula sem outro cobertor. A luz difusa de um apartamento do outro lado da rua foi a única a ver as lágrimas correndo naquele rosto imóvel. A cidade transpirava.

Repulsa. O pensamento uno e triste daquela memória:
"Ela nunca mais põe os pés aqui! Não a deixarei entrar de novo em minha vida, muito menos mexer comigo". No poço dos olhos, havia angústia. Encolheu-se... O frio chegava lentamente. O medo, a revolta e a vontade de livrar-se do pântano de pensamentos os traziam mais fortes que as marteladas do frio em cada poro de seu corpo. Tanto tempo, tanta vida, tanta hipocrisia, tanta mentira...os pensamentos doíam, todas as palavras vãs, os olhares enganosos, os sorrisos falsos...tudo aquilo que acreditava ser certo, ser verdade, traduzia somente uma coisa... a angústia.

Fez o que tinha que fazer (alívio!)
Havia muito mais o que fazer (dor)
O que ao certo não se sabe (dúvida)
Ela não entra mais aqui (reação)
Na, não, não (incerteza)
As coisas vão mudar (fé)
Preciso somente esquecê-la (alívio)
Preciso esquecê-la (dor)

As idéias se encontravam dentro da cabeça agitada... impassivas, não se conversavam. O corpo tremia, dessa vez por força dos choques atrás dos olhos. Incômodo...insônia...pôs-se de pé, caminhou morbidamente até a sala. Parou e encarou o espelho, esperando respostas. E as respostas obtidas vieram em choro. Ela tentou se livrar e, entretanto, continuava lá... as mesmas palavras...angústias...olhares...lá estava ela de novo...e o cheiro voltara.

26 de fevereiro de 2008

O sorriso do Pingüím

ATUALIZAR....ATUALIZAR...ATUALIZAR...Chega e-mail, lê e-mail, pega a resposta na pasta, copia, cola, envia...ATUALIZAR. João estava com os olhos quase fechando, hipnotizado, girando o mouse.

SETINHA...MÃOZINHA...SETINHA...MÃOZINHA...ATUALIZAR. A coisa mais chata que aquele estudante poderia conseguir, João conseguiu. Um salário fudido de quinhentos reais, um vale alimentação ridículo e uma carga de bilhete único. As atividades no partido eram assim. João pensava e repensava se estava satisfeito, o que obviamente já tinha resposta, mas parava de pensar quando lhe escorria uma baba no canto da boca.

Sua função era muito simples: responsável-superintendente-do-atendimento-ao-público-do-partido-na-região-central. Em suma, ele recebia e-mails com dúvidas, reclamações e aporrinhações; lia, escolhia a resposta - automática na maioria das vezes -, mandava e pronto...respondido. Seis horas por dia nessa alucinante rotina. Todas as réplicas e tréplicas também ficavam sob sua tutela. Ao final de cada mês, uma reunião com o subcoordenador-de-relações-públicas, um relatório das atividades...tantas perguntas assim, tantas assado, vinte palavrões, quinze referências diretas à senhora mãe do único deputado do partido, etc. O subcoordenador passava o olho, cruzava as pernas na sua poltrona, mordia a ponta do óculos e dizia:
- Vinte palavrões?
- É.
Silêncio
- No mês passado foram quantos?
- Dezoito
- Hmmm (mão no queixo) vou ter que falar com Aldair, esse marketing nosso não está funcionando. Pior que ele tá com uma dor de barriga que não consegue ficar dois minutos sem limpar a testa e sair torto.
Jogava o relatório na mesa e dava um tapinha no ombro de João, que nem tirava os olhos do pingüim em cima da mesa:
- Muito bem, João. Ótimo trabalho.


Naquele dia, antes de sair da sala de reunião, João percebeu que o pingüim em cima da mesa estava com enorme sorriso nos bicos. João cerrou os olhos, aproximou a cabeça e teve certeza. O pingüim estava rindo, e rindo um riso jocoso, meio malandro...estava rindo dele, aquela figura patética, naquela vida medíocre, num partido de merda. João levantou, pegou o pingüim, enfiou na cueca e saiu.

No outro dia de trabalho lá estava o pingüim ao lado do computador. Primeiro e-mail:

Boa tarde,
Sou eleitor do deputado M........ e tenho acompanhado o envolvimento dele no caso das lantejoulas chinesas. Prefiro não acreditar que ele esteja realmente envolvido nisso. Qual a posição do partido a esse respeito?
Grato
Conrrado

João leu e já pensou: “resposta 1 do caso das lantejoulas chinesas”. Desceu o mouse para acessar a pasta e lá estava, do lado dele, o pingüim, imóvel, com seu sorriso perturbador. João parou, deu um responder e a próprio punho digitou:

Prezado Conrrado,

Primeiramente gostaríamos de agradecer pelo contato. Somente ouvindo nossos eleitores podemos dimensionar o tamanho do pinto que nos espera. Em relação ao envolvimento do deputado no escândalo das lantejoulas chinesas, nós garantimos a plena integridade e isenção dele em tal fato. Acreditamos, entretanto, que o molhar das bucetinhas nos fará passar por esse imbróglio.
Atenciosamente,
João

E enviou.

As respostas que se seguiram tiveram a mesma serenidade, como:
“O partido convocou uma reunião extraordinária com o Mestre Splinter e os Tartarugas Ninjas para discutir a pauta”;
ou
“Não podemos repudiar diante do Amado Batista. É uma questão de honra para o partido”;
ou ainda
“haja vista que os pardais castrados da Amazônia estão em greve de sexo oral, temos uma conjuntura delicada”
passando por
“encaminharemos todas as informações ao Cirque Du Soleil para averiguações”
e até
“Agradecemos a compreensão e estamos torcendo pelo milésimo gol do Túlio Maravilha”

Assim se seguiu por vinte dias e todos os personagens de quadrinhos, desenhos e filmes, todos os palavrões, artistas bregas e físicos quânticos tiveram sua hora e sua vez. A vida de João estava extremamente empolgante. Nestes dias o pingüim parecia depressivo perto dele a cada resposta que recebia. Algumas pessoas não estavam entendendo o que acontecia, perguntavam e recebiam uma resposta pior, outros xingavam até a esposa do deputado. A campanha só não durou mais porque, no vigésimo dia, rompe pela sala o subcoordenador, vermelho, louco.
- Puta que o pariu João, que que tá acontecendo nessa merda?!?!?! Meu irmão me ligou porque o vizinho dele recebeu um e-mail daqui falando que o Tio Patinhas ia fazer um casaco de lantejoulas e enviar por sedex.....mas que porra é essa?!?!?
- Não sei senhor – respondeu, com cara de sonso, escondendo o pingüim atrás do monitor.
- Você tem meia hora par ir à minha sala explicar isso – e saiu batendo a porta.

Nesse tempo, sem preocupações, João contabilizou um minirelatório com os mais de 1100 palavrões, as mais de 400 referências diretas à mãe do deputado e também à cunhada e à esposa, os quinze processos notificados e os raros bem humorados que acreditaram ser uma piada. Juntou tudo, colocou o pingüim na cueca e foi até a sala do subcoordenador.
- Senhor, não sei, sinceramente, o que está acontecendo – e colocou o relatório em cima da mesa – mas quero deixar claro que não admito ser tratado assim em meu ambiente de trabalho. Vou sair do serviço e do partido e entrarei com um processo contra o senhor por danos morais, obrigado.

Nessa altura do campeonato, o subcoordenador já estava pálido, com o relatório nas mãos. Não disse uma palavra sequer. João o olhou, tirou o pingüim da cueca colocou-o de volta na mesa estrategicamente virado para o homem e saiu. Apagou os arquivos do computador e foi embora.


8 de fevereiro de 2008

Jili, China, 05 de Janeiro de 2003

Querido irmão,

Gostaria, primeiramente, de pedir desculpas pelas duras palavras que lhe dirigi há dois dias. Não nego o sentimento latente em mim quanto às suas atitudes. E de reafirmar que, do que disse, muito é verdade. Acredito, porém, que nossa união nesse momento de conturbação é mais importante que as prateleiras da loja ou seu comportamento ocidental. És um Li, está no seu sangue e isso não há como negar.
Refleti muito sobre minha outra carta (e acredito que nesse momento em que escrevo você deve estar lendo com rancor) quando eu mesmo comecei a arrumar as coisas aqui em casa. Joguei fora a antiga cama de palha onde papai morrera; deixei somente a que era sua, que está mais conservada. Hoje durmo nela. Limpei com creolina e água sanitária o chão todo. Mudei uns móveis e deixei mais arejados a sala e o quarto. Confesso também que começo a sentir falta dos jogos do Lakers, é difícil ficar sem a televisão para zapear e passar o tempo. Hoje, olho e olho da janela, aquelas montanhas, que continuam as mesmas de quando saímos daqui. Elas são tão pacíficas, tão sóbrias e remetem igualmente às minhas memórias de menino aqui, quando não as olhava desse mesmo modo, e ao que está atrás, a você, a Tung.
Esta noite receberei Aiko em casa...Talvez você tenha notado o frêmito de minhas frases...ela tem me feito muito bem. Apesar do tempo, os olhos não mudaram...continua vivaz. Lembro-me de lhe ter contado nossa história, foi minha primeira mulher e agora parece que o acaso caminha para que seja a última.

Desculpe a brevidade, mas espero que minhas desculpas sejam aceitas e aguardo ansiosamente mais novidades suas daí. Se Tung perguntar desta vez, diga que estou bem e lhe mande um beijo.

Fica um para você também.

Até breve.

24 de janeiro de 2008

Jilin, China, 03 de janeiro de 2003

Meu irmão,

Choro de dor por ler suas palavras. Enquanto sorvo o sofrimento de nosso pai, você goza desse mundo vil como se sua liberdade se encontrasse realmente na morte do nosso pai. Você fala de uma forma que desconheço, mal engoliu a poeira de minha ida e desatou a pilhérias e mudanças. Não as condeno, acho sim que de fato esqueceu de onde veio e qual é sua honra. Antes de sermos comerciantes, somos herdeiros de nosso sangue.
Você está se deixando levar pelo que esse ocidente podre te oferece, prazeres vazios, acha que assim honrará nossa família como último homem dela?
É uma ofensa questionar os ensinamentos de nosso pai e, se você não os aprendeu, questione seus princípios.... És ou não um Li? Não é o que me parece, mas vejo que na primeira oportunidade que tiver, inventarás um apelido de cinema americano para que as putas loiras daquele lugar possam te chamar e você vai acreditar piamente que é realmente uma pessoa importante. O que fez então na virada do ano? Comemorou como um cidadão americano os fogos estourando no céu? Se fez isso, admirou a melhor competência deles....pois de fogos eles entendem. Fizeram da nossa descoberta o caminho para a morte....você se lembrou disso? Não.

Não me estenderei mais, sofro por você.

Lao Peng Li

14 de janeiro de 2008

É um prazer conhecê-lo!

- Ok! Como você chegou até mim?
- Alguém para o qual você já havia trabalhado me indicou.
- Quem? Carlos?
O homem hesitou, seu nervosismo fazia aparecer a veia no pescoço apertado pela gravata. No apartamento sujo e pouco iluminado perto da Avenida 9 de julho, era possível àquele homem ver um mural repleto de fotos com pessoas sorrindo, outras sérias, outras ainda lamuriosas, fotos de todos os tipos.
- Você deve estar se perguntando se aquelas fotos são de pessoas que eu já matei – sentenciou o gordo por trás da luz branca voltada para a mesa que os separava. Em cima da mesa, um cinzeiro cheio de bitucas e uma lata de Budweiser.
O nervosismo do homem fez-lhe correr grossos fios de suor pelas têmporas. A pele vermelha salpicava de gotículas. Ele tirou um lenço do paletó e limpou seu rosto ainda com o olhar fixo no mural, ao mesmo tempo que sentia o olhar penetrante da figura atrás da mesa. Não era possível ver seu rosto, mas ele tinha certeza de que não conseguiria encarar aquele homem.
- Não quero te deixar nervoso – falou o gordo, dando um trago profundo em seu cigarro – mas todas aquelas fotos são sim de pessoas que eu já matei, como você supõe, e acredito que você não deva estar com medo, senão não estaria aqui. Podemos falar delas se quiser, mas quero saber o que te trouxe aqui, ou melhor, quem?
O homem limpou mais uma vez o rosto, se ajeitou na poltrona de molas tortas e, do bolso da camisa, tirou uma foto e a entregou ao gordo.
A mão do gordo apareceu na luz branca e apanhou a foto com força. Ele a olhou um instante e deu duas batidas com o dedo do meio.
- Quem é ele? O que ele faz? E por que quer matá-lo?
- Não quero dar muitas informações além das necessárias.
O gordo se encurvou de sua poltrona e mostrou sua face na luz. Olhos negros, um maior do que o outro, barba rala e narinas largas.
- Em primeiro lugar – começou, cerrando os olhos – esse é o meu negócio e você não tem nada que querer enquanto EU não souber o que tenho que saber e, em segundo lugar, você não tem a menor capacidade de saber quais são as informações necessárias. Não quero ser indelicado – acalmou a voz –, vem aqui um pouquinho.
Foram até a janela.
- Tá vendo esse monte de janela? Esse monte de apartamento?
- Sim.
- Quantos mortos você acha que tem nesse prédio da frente?
- Acho que nenhum – falou tímido, constrangido com a pergunta.
- Eu digo a você, existem muitos mortos nesse prédio, dezenas – falou sério, olhando para frente – São pessoas mortas, esquecidas por alguém ou por algo. Você conhece alguém chamado Ezequiel? – virou o rosto.
O homem sentia-se perfurado pelo olhar do gordo e confuso com aquela conversa.
- Nn não.
- Você acredita que exista alguém com esse nome?
- Sim, claro!
- Você sabe me dizer se esta pessoa está viva ou morta?
- Viva, não é isso?
- Como você sabe se não a conhece? Você supõe a existência de uma pessoa com esse nome, mas se você não a conhece, ela não existe para você. Pode existir para outras pessoas, mas para você ela está morta...tanto faz, entendeu? Como você quer que eu mate uma pessoa que está morta para mim? Você precisa dar vida a esse cara – apontou para a foto – para que eu possa matá-lo. Não é difícil. Tá vendo aquela loira ali – apontou para o mural? Mandaram matá-la por indeferir um processo contra um assassino. Este aqui foi uma mãe que me mandou matar porque ele levava droga ao filho dela na clínica e este aqui porque matou o filho de um fazendeiro numa invasão de terra. Eu não me importo com os motivos, todos têm explicações quando desejam a morte de uma pessoa. Eu executo porque sou pago para isso...e bem pago. Agora me conte por que você quer matar esse homem.
Sentaram-se novamente. O homem recobrou seus sentidos.
- Ele me traiu.
- Sim, e o que mais?
- Ele não tinha nada quando o conheci, dei estudos, formação, depois a gerência de uma unidade importante do grupo. Quando ele assumiu, me deu um golpe que vim a descobrir há pouco tempo. Desvio de recurso para uma conta fora.
- Sei, não precisa de mais detalhes. Por que você não o denuncia? Acredita mesmo que matar seja a melhor solução? Você acha que assim arranjaria a senha da conta para pegar de volta o dinheiro? Ou é orgulho?
- Ele me traiu!
- O orgulho é um sentimento selvagem. Não sei se percebeu, mas gosto de pensar nestes casos extremos que levam as pessoas a procurarem uma pessoa como eu e posso dizer que o orgulho é o mais primitivo, vil dos sentimentos que movem a gente. É uma mistura de indignação própria e culpa que sempre é jogada em cima de alguma coisa.
Silêncio e desconforto atingiram o estômago do homem. O gordo continuou.
- Eu sempre pergunto nesses casos de traição: porque você mesmo não o mata?
- Tenho um nome a zelar.
- Está sugerindo que eu não tenho um nome a zelar? Ok, são trinta mil e você escolhe como. Enforcado, queimado, tiro, afogamento, veneno...Fique a vontade.
- Tanto faz, só o quero morto.
Mais uma vez, um desconfortável silêncio na sala. O gordo foi até o sofá do homem.
- Você sabe que a culpa é sua, não sabe?
- Como assim?
- Você o criou, quis subverter a ordem das coisas. Adestrou um leão e acreditou tanto no seu poder que o colocou para dormir em seu quarto. Você mostrou a este homem o quão injusto e filho da puta é você e o mundo.
- Você não está entendendo, eu ajudei aquele homem, não sou culpado.
- Esperava que dissesse isso mesmo... é uma questão de ponto de vista. Esqueça isso – o gordo caminhou com o homem até a porta – traga o dinheiro amanhã e as informações de rotina para o serviço.
- Ok, trarei no mesmo horário.
O gordo abriu a porta e estendeu a mão. Mais estendido ainda foi seu olhar para os olhos do homem.
- Gostaria de pedir também que trouxesse uma foto sua – leve sorriso. Foi um prazer conhecê-lo.
A frase veio com peso e a estranha sensação de que ele teria que voltar lá no outro dia. O homem desceu as escadas atordoado com aquela situação enquanto o gordo perdia seu olhar na arrumação do mural.

17 de dezembro de 2007

Jilin, China, 20 de dezembro de 2002

Tài Tai,

É com pesar que lhe escrevo hoje. E por mais estranho que pareça, o falecimento do nosso pai é o fardo mais leve desse regresso. A morte revela os homens e tenho certeza de que o velho Wang foi “se divertir na Origem de todas as coisas”. Seu rosto continuava o mesmo rosto tranqüilo e rijo de vinte anos atrás. Acredito, entretanto, que o sofrimento, mais que o tempo, impregnou nele espessas rugas. Não tenho a mais vaga idéia do que se passou pela cabeça dele com as perdas dos últimos anos, mas quando olhei pela última vez seu rosto antes que a terra o cobrisse, tive a sensação de que, por trás da gangrena, existiu uma reclusão à vida. Assim como, por trás daquele rosto sereno, se escondiam sôfregos pensamentos.
Perguntei a Aiko sobre o ocorrido e parece que ele convivia muito bem com a ferida no pé, tanto que se enfezava se lhe cogitassem a vinda de um doutor. O machucado não tratou e, nos últimos meses, cresceu. Segundo Poya – ainda viva, e que cuidou dele – o cheiro de carne podre fazia com que poucos se aproximassem da casa. Ela disse ainda que nosso pai conferiu a ela, ainda são, o desejo de escrever a nós dois. Infelizmente, a velha Poya não teve tempo de pedir a Aiko que escrevesse antes das violentas febres e alucinações que acometeram papai.
Recordo vivamente de todos os desejos e palavras dele em relação à morte e, em respeito a isso, não peno sua ida, mas ainda assim me sinto um devedor para com ele e pretendo, para honrar a nossa história, buscar na boca dessas pessoas da aldeia os vintes anos da vida dele. Somente assim poderei enterrá-lo verdadeiramente e ter comigo a paz que ele está tendo. Sinto-me, como o mais velho da nossa escassa família, na obrigação de revigorar a dor de um pai que resistiu às perdas e, ao mesmo tempo, convalesceu com elas. Fui ausente nessas horas e isso me faz não o ser agora. É um fardo, sem dúvida, mas o levarei a cabo. Por isso, querido irmão, voltar à América não é coisa para agora. Estou hospedado na nossa casa e me sinto acometido pelas almas que nela sucumbiram... é uma parte importante do que pretendo.....Tornarei a escrever....e tenha certeza de que compartilharei contigo aquilo que for necessário. Espero que esteja tudo bem por aí. Aguardo notícias suas. Se Tung perguntar como estou, não lhe diga nada do que te escrevo...apesar de meu amigo, não quero partilhar, senão com você, os fatos.

Um grande abraço,
Lao Peng

12 de dezembro de 2007

Jilin, China, 02 de dezembro de 2002


Caros Lao Peng Li e Tài Tai Li.

O motivo desta carta é triste, portanto, serei breve, sem muitas considerações.

Venho informá-los que o pai de vocês faleceu, ontem à noite, devido a uma infecção generalizada, advinda de um corte no pé feito com a enxada, enquanto carpia a lavoura.

Friso, aqui, o quanto tentamos salvá-lo e, principalmente, o quanto ele foi valente, resistindo e lutando bravamente por quase um ano. Infelizmente, devido às sérias dificuldades que enfrentamos aqui não pudemos guarnecê-lo de todos os medicamentos e cuidados necessários.

Em seus últimos dias de vida ele pronunciava incessantemente o nome de sua mãe e, pouco antes de morrer, me fez um último pedido: “Procure meus filhos que estão longe e diga a eles que retornem... eu vivenciei e posso assegurar-lhe que a busca pela sobrevivência não vale a renúncia de uma vida inteira...”

Espero que estejam bem.

Meus sentimentos,

Aiko Koan

O lado de dentro...sublime

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