Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

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7 de agosto de 2007

A magia Clara (VII) - Loucura

- Meu deus do céu, como que eu fui deixar o dinheiro no carro... puta que o pariu, como eu sô burro...e agora? – Rodrigo praguejava dando chutes no pneu do carro.
O medo, a dúvida e o desespero dominavam todo e qualquer ar que invadia os pulmões. Há pouco, estavam Clara e Rodrigo em um quarto de hotel num lugar inóspito, fugindo de quem os procurava e deles mesmos. Não tinha como alguém saber daquilo, a menos que estivessem sendo seguidos desde muito tempo. E por que então a pessoa – maldita que a seja – que roubara o dinheiro do porta-malas não os matara? A menos que esta queira vê-los vivos por algum motivo. Será que estava por ali ainda? Ou será que, por descuido, alguém vira uma mala suspeita na hora em que entraram no hotel? Nada poderia se concluir naquele momento, senão que estavam perdidos e quase sem nenhum dinheiro.
- A gente não sabe o que aconteceu Rodrigo, mas não adianta se desesperar...quem quer que seja levou esse dinheiro, não nos fez nada e ainda temos o carro... nada aconteceu com a gente...esse dinheiro foi o grande causador de toda essa história, às vezes acontecem coisas que são sinais para nos ajudar.
- É fácil falar isso, essa coisa era a única garantia que eu tinha de viver tranqüilo por um tempo. Tem alguém aqui fora que veio buscar isso e não vão deixar barato por eu ter roubado esse dinheiro.
- Tá, mas não tem ninguém aqui, vamos pra cidade e podemos vender o carro, você pega esse dinheiro e fica um tempo escondido..não vai mudar nada...isso era um fardo....vamos embora daqui.
Rodrigo com a cabeça baixa no capô do carro apenas ouvia.
- Vai, entra, eu dirijo, vamos embora.
Ele entrou sem dizer uma palavra sequer, extremamente transtornado. Clara, antes de ligar o carro, olhou piedosamente para o rapaz, deu-lhe um beijo carinhoso na bochecha colocando a mão em seu rosto:
- Calma...fica calmo – virou-se para o volante, ligou o carro e arrancou.
O percurso do hotel para a cidade foi denso como lama. Nada se falou, nada podia ser dito. Adentraram na frieza das casas simples que cercavam a rua e nos olhos dos transeuntes, curiosos e famintos, a sugar o calor dos corpos. Logo veio o asfalto, alguns prédios, comércio, jovens rindo, velhas andando. Clara parou o carro na frente de uma concessionária de veículos – já volto – falou seca e preocupada.
De dentro do carro, Rodrigo pôde ver e moça gesticulando com o homem que parecia ser o dono do estabelecimento. Ela apontava para o carro e falava com veemência. O homem de rosto fechado olhava de longe...cara descrente. Quem iria querer um carro daqueles...tolice acreditar que conseguiriam vendê-lo. Não demorou muito e Clara voltou desolada, colocou a cabeça na janela do carro:
- Sem possibilidades. Ele disse que vai ser difícil a gente vender isso aqui...bom, a gente não tem tempo pra esperar. Quanto sobrou do troco do hotel? A gente come alguma coisinha baratinha e abastece – ela deu a volta, sentou ao volante, olhou a situação do tanque, não era das boas, afinal andaram muito de São Paulo para Pontaporã.
Ela sabia que não daria para encher o tanque nem para chegar à cidade encontrar sua amiga...não queria a lucidez daquela conclusão...preferiu não compartilhar o drama com Rodrigo. Olhou para ele.
- Trinta e um reais e sessenta centavos – falou Rodrigo, com a mão curva e o dinheiro amassado – mais um maço de cigarro e um isqueiro.
Clara continuou olhando com o rosto perdido. Ligou o carro, saiu...cidade...casas..pessoas...estrada...mato...rodovia e parou no posto da saída.
- Coloca trinta reais para mim por favor – pegou o dinheiro da mão de Rodrigo que mantinha o olhar perdido na frente segurando o puta-que-o-pariu – vou pegar alguma coisa pra comer.
Pagou o frentista, foi à loja e voltou com um salgadinho. Entrou no carro, colocou-o no colo de Rodrigo e partiram.
Avançaram estrada adentro...haviam dormido até tarde, estavam descansados, mas a noite começara a mostrar sua cara. Clara não quis interromper os pensamentos de Rodrigo, mas colocou a fita da Rita Lee e seguiram viagem noite adentro. A estrada estava deserta. De repente, Rodrigo começou a dar risada, começou tímido, mas logo gargalhadas.
- Ai ai ai quer saber..foda-se esse dinheiro...você tem razão. Às vezes acontece um monte de coisa boa e a gente não curte porque está muito preocupado. Sabe, vai ser legal trabalhar num restaurante...uhhhuuuu!! gritou e aumentou o volume do rádio...“Um belo dia resolvi mudar e fazer tudo que eu queria fazer”. Rita Lee cantava...uhuuuu!! repetiu Clara.
Selaram um beijinho e balançaram a cabeça. Um momento de euforia...o ponteiro da gasolina estava piscando e estavam num caminho alternativo sem iluminação e sem casas. Não demorou muito e o carro deu sinais da seca, foi parando..apesar disso, estavam bem humorados:
- Acabou a gasolina – falou virando o pescoço.
- Hiii – a lucidez não visitava Rodrigo há muito – falta muito?
- Mais uns quarenta e cinco minutos no ritmo que a gente estava.
- Vamos a pé...depois a gente vê o que faz.
- Tá.
Parecia loucura, mas estavam em comunhão dela. Pegaram a lanterna, blusas – fazia frio e acabara de chover – fecharam a porta, deram as costas ao carro. A noite, apesar de sombria, trazia as nuvens nas poças d’água passando rapidamente na frente da lua, mas os passos cegos faziam chacoalhar toda imagem. Caminharam bem e descontraídos por uma hora e meia, fumando e conversando. Depois disso...silêncio...dores nas pernas...bolhas nos pés molhados...cansaço e começaram a cair grossos pingos do céu anunciando uma tempestade. Foi-se todo resquício de loucura...a chuva veio forte...só tinha mato, nada de árvores, nada de casas...nada. O frio cortava o rosto dos dois e fazia trincar o músculo de suas pernas...raios estouravam no horizonte e iluminavam o tamanho do percurso. Meia hora de tormenta e Rodrigo cai no chão desmaiado. Não tinha comido nada e recusara o salgadinho. Clara, com o cabelo ensopado no rosto, agachou do lado dele. Os músculos da coxa retraíram...ela deu um grito, sentou-se segurando a dor, voltou-se para o rosto dele:
- Rodrigo!!Rodrigo...acorda – tentava fazer sua voz ser audível diante da chuva e dava uns tapas em seu rosto.
Rodrigo voltou a si. Muito fraco...respiração ofegante...ele não ia conseguir. Faltavam ainda uns trinta minutos para chegarem ao começo da cidade. Clara deitou-se do lado dele, virou o seu rosto para que conseguisse respirar, passou um lado da jaqueta em volta de seu tórax e repousou. Logo que a chuva parou, Clara foi incomodada por uma luz. Não, não era o dia amanhecendo. Um farol alto de um veículo vinha na estrada em direção aos dois. Clara, com esforço acenou.
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Continua...........último capítulo semana que vem.

Um comentário:

GNovo disse...

Muito bem, Vitão, até aqui foi Rita Lee... caminho para o último capítulo sem ter sinais do final que me aguarda...

O lado de dentro...sublime

O lado de dentro...sublime