Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

1 de fevereiro de 2013

Por causa de uma colombina acabou chorando, acabou chorando...


O carnaval. Ah, o carnaval. A cidade sorria e dançava ao som das marchinhas, cuspia confetes e serpentinas para o ar. Quase congelavam o tempo em uma euforia sem igual cortada por uma gargalhada longa. Bêbados, abstêmios, certinhos, professores, alunos, doutores, pais de família, ricos e pobres moviam suas pernas e braços ao longo da rua como se esquecessem sua posição social ou respeito adquirido. E se lembrar da folia e do doutor em êxtase, a estudante dirá: “mas tudo bem, era carnaval”.
Se olhássemos de baixo veríamos um frenesi de pés e pernas ensinuantes e saltitantes. Pernas nuas e suadas no calor dos corpos. E se olhássemos de cima veríamos as mãos erguidas em um farfalhar dos ventos. Dedos apontados para o céu enluarado e braços periódicos. A das fagulhas cintilantes dentro daqueles corpos brotavam desejos, liberdade e compaixão. A crença na alegria era a única doença acometendo todos. E, deitado no divã depois de um tempo, esvaziado de tudo aquilo o doutor dirá: “mas tudo bem, era carnaval”
A silhueta sinuosa e as pernas duras se encontram e tímidos se entreolharam. Sorrisos estampados, olhares perpassados por espumas e cabeças conseguem se conectar. A dança é fulgurante e dos goles de cerveja saiam cordas a enlaçar os dois. Disfarçam, giram, olham para outros lados até que os olhos se cruzam e recomeçam o movimento em uma crescente de expectativa e charme. Quando os dedos roçam sem querer no meio da baila um arrepio percorre os corpos. Uma dúvida os ronda: é de fato recíproco? E podem pensar: “é carnaval”.
O longo flerte emaranha as almas e instiga os lábios. Ensaio da escola de samba do dançar-juntos, bloco pegar-na-mão saindo para rua e de repente estão de mãos dadas girando para qualquer lado sem se importar. Não dizem nada, só seus corpos falam. E as cinturas se juntam timidamente se separando depois, e quando “O Pierrot apaixonado” toca nos metais da banda, ele canta aos céus encarando sua colombina. E os braços se enlaçam do outro corpo e os lábios se escorregam no outro lábio, e as línguas se degustam em um frêmito de hálitos. E se virem, aquela força esparramada no meio da praça em um beijo de cinco minutos dirão: “viva o carnaval”.
E eles saem da folia, correm de mãos dadas e se beijam em cada esquina e se esfregam no muro. E se amam em um silêncio cúmplice. E de novo, e mais uma vez, descobrem cada poro dos corpos úmidos e cada aroma escondido. A lisura de uma pele e a rigidez da outra se espremem e suas bocas gemem e sorriem. E no atrito que gera a vida, a festa de edifica na alma dos deuses e eles em uma plena felicidade pensam: “como é bom o carnaval”.
Despedem-se, fazem juras, dizem até logo. Pensam um no outro e na magia instaurada entre os dois vivem de memória. Nunca mais se verão? Não se veêm, sofrem, choram em uma devoção carnal e, pouco a pouco esquecem. Casam-se, criam seus filhos, seguem a vida mas não perdem a lembrança. Anos depois, recostados em seus divãs, o doutor e a paciente poderiam ser os mesmos de um carnaval de outrora. Reconhecer-se-iam talvez jamais, não são mais os mesmos. Rostos se vão, sensações perduram. Descobriram com o tempo as chagas das conclusões reais dentre as quais está: “a vida não é um carnaval”. E, ali, deitados em lados opostos do consultório, repletos de angústias e recordações, sem se reconhecer, pensarão em silêncio: “era carnaval”.




19 de janeiro de 2013

2004: Antônio, Paulo e Lucas Morgado


O fio de cabelo era seguro entre o polegar e o indicador. Sua espessura poderia ser comparada com a perna de uma formiga. E antes fosse uma formiga. A possibilidade dele se desprender por conta própria e voar pela cidade era extremamente baixa, mesmo assim era seguro com uma força desproporcional, a ponto de deixar as pontas dos dedos brancas. Uma espécie de mimetismo multicolor em torno do branco. Fio branco, dedos brancos, pontas dos dedos mais brancas. Existem tantos e infinitos brancos a ponto de haver necessidade exígua para que se fossem inventadas todas as palavras a fim de distinguir todos eles. O branco das pontas dos dedos era muito, mas muito distinto do branco do fio de cabelo e ainda mais do branco das nuvens no céu. Um tanto quanto róseo, âmbar  cor de pele. A nuvem por sua vez era quase prata, uma saliência perolada de luz semi artificial.
As nuvens de algodão que povoam o céu no inverno não parecem reais. Tamanha é sua disformidade lógica que serve às crianças de massinha de modelar da imaginação assumindo tantos quantos forem os nomes dos mais diversos objetos, bichos e personagens. Das jarras aos jacarés, dos aladins aos tubarões, castelos, cavalheiros e fadas. Tudo sem que fosse importante a natureza das coisas, tão somente suas formas e a exatidão com a qual se descreve. Rodeia este momento um estupor explosivo ao se olhar a nuvem e perceber a coisa vista pelo amigo e até então oculta. E na percepção da forma, há o instante incontido no qual os amigos se olham e é como se lessem o pensamento um do outro e conversassem em silêncio por meio de uma ideia em comum. Cúmplices de uma conclusão. Vibram. Depois disso, por longos minutos um só conseguirá enxergar na nuvem a forma recém-descoberta. Até que surja uma nova ou venha a noite trazendo às crianças e ideia do tempo. A nuvem, no entanto, apesar de todas as formas assumidas, não mudou em nada. A quantidade de nomes recebidos seria proporcional à imaginação daqueles que a olhassem. Podia ser quase tudo sem mudar quase nada. E, ela lá em cima vista pela cidade inteira mal sabia como sua existência se multiplicaria. No dia seguinte ninguém se lembraria dela, mas guardariam quem sabe a cumplicidade do olhar amigo por mais tantas e tantas nuvens. As nuvens não podem ser reais.
Do par de olhos cuja nuvem figurava via-se o fio de cabelo seguro pelos dedos firmes. Ao olhar de perto aquele fio, as nuvens se ofuscavam e tinham também a impressionante capacidade de variar a cor do filamento. Posto diante do céu azul ele era branco. Mas de um branco muito diferente do dedo e da nuvem. Um branco gelo caindo para o azul eventualmente. Mas em um leve movimento sobrepondo-o à nuvem e ele se fazia preto, escuro e ninguém com o mínimo de sanidade poderia dizer duvidar de sua coloração. Assim, o fio de cabelo se descolou dos dedos sendo desmanchado pela gravidade e arrastado pelo vento. Em milésimos de segundos os meus olhos não conseguiam mais manter o foco. Ele era agora parte do sumidouro de coisas que existem sem ninguém ver. Agora, imagino, pego por uma corrente súbita o fio elevava-se em um balé invisível e singular. Insinuava-se alegre sobre os prédios de São Paulo. Seu movimento visitou a Alameda Santos, os botecos de esquina, superou a torre da renascer em altura assim como a torre da bandeirantes, luzida de rosa. Dali ele via a Avenida paulista e a rua da consolação preenchidas de carros, motos e ônibus. Massas em deslocamento. Pontinhos caminhando nas calçadas com um ritmo parecido em uma forma de organização própria. Por vezes um ponto ultrapassava o outro, mas adiante esperava os carros passassem para atravessar a rua. Aqueles objetos compunham a pulsação da cidade. Se um pássaro passasse pelo fio de cabelo flutuando sobre tudo talvez o veria rosa como a luz da torre. Tomando-o pelo bico e levaria para o ninho entre uma fresta e outra da Dr Arnaldo e do cemitério do Araçá. Suas propriedades físicas serviriam muito ao animal. Sua resistência mecânica faria segurar a forma abaulada do ninho. Sua estrutura faria aquecer os ovos e acolher a prole quando necessária. Ao pássaro não interessava a cor do fio, ou o choro panegírico levado ao túmulo no qual instalara sua residência. Já ao homem cujas células e DNA provinham aquele fio, e talvez os ossos por debaixo dos mármores a cor era o sinal da velhice.
Os sinais da idade vinham, como tantas outras coisas vinham com o tempo. Naquele momento, eu era um ponto na rua, com medo de parecer velho frente aos outros pontos. Os olhos negros deste ponto olhavam para a direção do ninho sem vê-lo. Naquele momento um pombo alimentava seus filhos com os despojos de um gato apodrecido. Entre o ninho e eu, um hospital. Dentro dele, em algum quarto estava internado um outro ponto, com muitas mais linhas brancas na cabeça, cujo DNA era o mesmo que o meu. Naquele momento aquele ponto no leito era um ponto com a memória em branco. Começava não conhecer mais suas próprias estruturas biológicas. Meu pai estava lá, internado e com Alzhaimer.
Estranho julho de 2004 no qual não chovia em São Paulo os fios de cabelo branco insistiram em brotar em minha cabeça. Nívea culpava o stress, mas diz apenas para afagar minhas preocupações antes que eu adentre ao seleto grupo do grecin 2000. Aquele tempo seco trazia um mal humor persistente para minhas caminhadas. Todos os dias eu saia do escritório, falava sempre as mesmas palavras: “Thiago, eu vou lá”, deixava o estagiário para atender as demandas, e caminhava da alameda santos até o hospital das clínicas. Meus passos já executavam um movimento sincrônico e ensaiado de forma que minha mente escapava para lugares remotos. Passava pelo parque trianon demorando mais para dar o próximo passo. A grandeza daquelas árvores era tamanha a ponto de me conter. Sempre me sentia diminuto sob aquelas copas centenárias. No cruzamento da Santos com a Augusta por vezes eu esperava até três semáforos abrir para poder atravessar. Minha estimativa sobre a quantidade de pessoas que passam naquele cruzamento por minuto é da ordem de trezentas. Moças e moços de escritórios, bancos, empresas cujas instalações adornavam a avenida paulista com um sem fim de superfícies espelhadas. À tarde, quando o sol se vai, aqueles prédios todos amplificam os raios laranjas tornando a avenida um túnel de luz. Era comum as pessoas se trombarem por não terem se visto. Todos andavam com os olhos cerrados ou óculos escuros. Naquele cruzamento aliás eu ficava mais para ver as meninas com suas roupas sociais. Excitava-me. Aquelas camisas desabotoadas até a fresta do soutien, algumas com suor nas axilas, marcando a camisa, e ainda assim havia elegância. De saia, com salto, a desenvoltura de algumas impressionava-me. O salto alto confere à musculatura da perna feminina uma notável perfeição formosa. Pernas depiladas ora amostras ora com meias calças, e naqueles meses quase sempre nuas. Suas unhas bem cuidadas e a delicadeza das mãos delgadas ao arrumar o cabelo. Elas andavam e riam, gesticulavam, deixavam seu rastro. Eu imaginava aqueles homens companheiros de trabalho se masturbando no banheiro da empresa eventualmente, depois saindo com uma feição impávida. Mas havia um detalhe imprescindível nos dias de calor além dos andrajos femininos, o McDonalds da esquina. Lá, todo este pelotão da libido, tomava sorvetes. É incrível como os lábios mudam sua forma na sucção da massa de baunilha e instantaneamente os olhos se serram. A bochecha afina ressaltando os pômulos. Um dia acabei ficando mais de quarenta minutos neste cruzamento sem dar conta do tempo ou de meus compromissos.
Lá na frente, chegando à parte alta da rua da consolação eu passava pelo bar do Vieira onde eventualmente estavam pessoas conhecidas tomando suas cachaças para abrir o apetite. Quando eu chegava antes do horário de visitas do HC, ia até um sebo na Teodoro, onde havia cadeiras para sentar e ler livros. Com o tempo acabei indo propositadamente mais cedo para este exercício diário. Na volta, fazia o mesmo percurso e, embora fossem as mesmas ruas, o caminho, entretanto era sempre diferente. Cada fato novo compunha a paisagem como uma série de recortes fotográficos. Um tropeço, um assalto, uma lamborguine no Hotel Renaissance, um mendigo comendo lixo, uma cigana analfabeta lendo mãos, um olhar farto de intenção entre um casal, um homem tirando a calça do vão das nádegas, uma mulher de bolsa a tiracolo e a saia suspensa mostrando seus glúteos e sua calcinha fio dental. Eu poderia fazer aquele caminho até a morte do meu pai e ainda acho provável ele nunca iria se repetir.
Aquele dia era o primeiro em que eu havia restabelecido a rotina. Depois da alta do meu pai ele passou em tempo na casa da Bernardete. Minha irmã enfermeira e separada do marido o que lhe conferiu a tarefa de cuidar de papai. Mas depois do segundo AVC sua situação de seu Antônio piorou e teve de voltar para o hospital. Lá descobriram o Alzhaimer. Deve ter sido decorrência dos derrames, disse o médico, mas ele certamente teria no futuro. Ainda no hospital teve o terceiro AVC e o sedaram em tempo. Permaneceu na UTI por meses sem abrir os olhos. Quando recobrou os sentidos já não tinha uma dimensão de quem era, muito menos dos outros. Ninguém, seus filhos, netos, minha mãe, nada. Nenhum assopro de memória repousava sobre ele. Embora falasse ainda. Quando estávamos lá, Bernardete, Nívea e minha mãe ele tinha os olhos impregnados de susto. Assemelhava-se a uma criança perdida. Suas retinas passeavam pela comodo, por nós de forma vivaz. Pensei vendo aquela rosto estrangeiro em como devem ter sido aqueles meses em sua cabeça. Apesar de sedado não teve uma morte cerebral, havia ali algo. Para mim ele estava em uma colônia de férias cuja construção se deu ao longo dos seus setenta e dois anos de existência. Lá não havia as obrigações familiares que o chateavam, a falsa preocupação com os outros, os remédios de hipertensão. Havia mulheres bonitas e maduras como minha mãe sempre foi aos os olhos dele. Ele se divertia, tomava vinho com seus amigos e contava histórias e gargalhava como deleite da recompensa por estar tão bem depois de diversos sofrimentos. E ele sentava ao pé da soleira de uma casa colonial como na fazenda dos patrões de sua mãe quando garoto. Ali ele admirava o horizonte de uma plantação, acendia um cigarro de palha e cantarolava uma música de Edith Piaf com quem se apaixonou a muitos anos. Antes de dormir fazia amor com Alva e no dia seguinte fazia de manhã, estralava seu corpo e ia ver o rio. Nadava e quando boia na correnteza calma seu corpo contém uma leveza aérea. Suspenso naquela massa translúcida, ele olha o céu azul e sente sua alma esvaziar pensando em fazer algum bolo, de cenoura talvez, para um café da tarde. Ouvindo o farfalhar da água no seu ouvido submerso enxerga somente o céu. Então ele abre os olhos e encontra três rostos desconhecidos e pesarosos olhando para ele em um quarto branco e estéril. Eu me sentiria assim e desejaria voltar acima de tudo. Não foi possível conversar com ele. Teríamos todos nós de recomeçar do zero. Fazer com que ele nos conheça a partir dali e que ao menos possa carregar um afeto para o resto de vida que lhe resta.
As visitas eram sucedidas por uma caminhada mais arenosa. Meu medo incomum de perder a memória me acompanhava pelos passos e, em um sentido reverso, eu tentava lembrar do máximo de eventos, fatos, pessoas, sentimentos, aromas, formas, ideias, tudo. Ao passar na frente do Vieira eu tentava lembrar todos os amigos do bar dali, de como os conheci, seus gostos, o nome das namoradas e namorados que eventualmente me apresentaram, irmãos, filhos, cachorros, cidade de origem, toda e qualquer informação a mim passada entrava neste exercício. O resultado dele era drástico. Algum nome me faltava e naquele momento se estabelecia uma batalha interna para lembrar. Ensaiava sons de outras palavras para ver se lembrava, por vezes voltava no caminho para me ambientar e tentar lembrar. Passava horas me torturando e esquecia depois. Perder a memória para mim seria a pior coisa para se acontecer com um ser humano em vida. Pior que as outras mazelas todas, aids, câncer, tetraplegia, parkinson. A memória constrói a vida e sem ela não somos nada. Todas as sensações e histórias do meu pai entrariam no limbo das coisas de existência questionável. Somente ele teria a chave do baú para tirar de lá segredos e fatos, mas ele perdera o baú e a chave. Já tem dois anos que minha mãe relata alguns casos estranhos com ele. Começou a trocar os nomes dos filhos. Mas aí, argumentei com minha mãe, eu faço isso em casa também. Mas ele havia perdido o molho de chave da casa, posteriormente encontrado no congelador, escondia dinheiro depois não lembrava o lugar acusando a empregada de tê-lo roubado.
Por algum motivo desconhecido quis voltar para o escritório pela Avenida Paulista. Talvez a maior quantidade de pessoas, prédios, carros e uma via mais larga a ponto de se ter perspectiva do horizonte me pudessem fazer bem diante da circunstância. A Alameda Santos era mais arborizada, delgada e irregular, o que também guarda suas surpresas e por isso vou por ela quase sempre, mas naquele dia era tortuoso pensar na perda de meu pai. Tentei lembrar qual foi a última coisa que conversamos ou eu disse a ele no hospital, antes do terceiro AVC. Seria a última lembrança de mim se ele tivesse lembrança. Me incomodava pelo fato de não recordar, mas falávamos assuntos banais, qualquer coisa sobre futebol ou notícias esparsas. Se eu soubesse a sucessão de fatos a espera dele, teria preparado algo confortante e certamente eu me lembraria do dia. Ele contudo, perderá o confortante e o desconfortante, as datas sumirão como borboletas ariscas, os rostos tomarão outras formas e a própria existência deve ser desconhecida. A fisiologia de um corpo sofrido precisa ser acompanhada de uma memória. Ele pode se esquecer que se agachar e levantar a labirintite descerá pelas têmporas fazendo-o tombar. Pode esquecer de sua hemorroida e tentar ir ao banheiro descontroladamente. Pode querer erguer algum objeto pesado sem saber a força que seu corpo é capaz de suportar.
No farol da Paulista com a Alameda Santos, enquanto olhava a igreja São Luiz, tentando uma inspiração ecumênica, e uma oração tímida para meu pai e para mim avistei Mauro, que me viu e acenou do outro lado. Mauro era dono de um restaurante Alameda Jaú e um dia me ensinou a fazer uma pizza para uma reunião da empresa. Um italiano simpático e fumante compulsivo. Como vai o meninão, me perguntou referindo-se ao meu segundo filho. Respondi que o médico havia marcado o parto para o dia 26. Daqui duas semanas, exclamou Mauro me dando um tapa forte no ombro. Já tem nome? Continuou. A Nívea quer Lucas, eu não tenho objeção. Lucas Morgado, e enquanto falava isso inclinava a cabeça para cima em uma exaltação, mais um tapa em meu ombro. Mauro é uma pessoa honesta e determinada em seu trabalho. Mas com inclinações preconceituosas tolas e isso acaba por afastar os outros. Sempre que nos encontramos procuro fazer com que a conversa não permita encaminhar para alguma possibilidade dele soltar seus impropérios contra bolivianos imigrantes, ou piadas ácidas. Por fim, hoje nossos encontros são casuais. Não vou mais ao restaurante dele, talvez por isso. Ou não.
Quando vi meus pés estavam subindo a escadaria da igreja. Ela estava com as portas abertas e lá ao fundo no altar, via-se da ruo, jesus cristo. Um pé direito enorme, de talvez trinta metros e uma abóboda revestida de vitrais. A última vez que entrei em uma igreja havia sido em 1998 no casamento do Jorge, colega de faculdade. Apesar do silêncio litúrgico aquilo não trazia paz dentro de mim, ao contrário, me causava calafrios e um desconforto sem explicação. Quando me vi lá dentro olhando os detalhes arquitetônicos e o tipo de madeira usada nos bancos, percebi que aquilo era uma visita a um museu, relíquias do passado em plena Avenida Paulista. Minhas orações para santo expedito nada tinham a ver com aquelas colunas de mármore. Minhas angústias também não. Minha fé no santinho me ajuda muitas vezes. Mas devo à igreja, e mais ainda a minha vó, por ter me feito descobrir um hábito que carrego comigo a mais de trinta anos. Igreja vem do grego, ekklesía, uma assembleia, reunião e com o passar do tempo mais conhecida como a casa de deus, mas por que quiseram que assim fosse. Esta foi a primeira palavra pesquisada, quando eu tinha dez anos de idade e minha vó me forçava a ir à missa. Relutava sempre e fugia. Um dia, sem a presença dela quis saber o que era igreja, o que era aquilo a qual minha vó me queria colocar à força. Com medo de perguntar, tive de buscar a resposta sozinho. Felizmente havia um dicionário etimológico em casa, dado pelo meu vô por parte de mãe. E encontrei o que se tornaria um hábito. Hoje, se meu filho de 7 anos já sabe encontrar na internet os jogos dele. Pode encontrar tudo o que quiser, mas as palavras são para ele meio de se chegar a algo, de se comunicar e de se entender. Para mim elas são vivas, históricas, emergem do pensamento silencioso de uma pessoa viram som, e entram no pensamento silencioso da outra de forma diferente da que saiu. É dinâmico, vivo, e o português como língua miscigenada coloca pitadas de latim, dialetos indígenas, africanos, árabes, saxões em um jogo de dicção difícil para os estrangeiros. Volta e meia me pego selecionando palavras bonitas das engraçadas mas pela sua sonoridade, carcaça, não pelo seu sentido. Dentre as engraçadas estão a pleura, o jumento, brotoeja, argila, picadeiro, croquete, bravata, gorfo, moléstia, joio, porca, xaxim, prostrar, bromélia, árvore, hímen, trote, rojão, jacaré entre tantas que sempre ouço e repito devagar pausando as sílabas e aquilo fica realmente muito estranho. Tento imaginar qual foi o momento da história humana no qual alguém olhou para aquele objeto ou sensação e emitiu um som para batizar com aquelas palavras. Existem as bonitas, por qual razão possa ser, eu as ouço ou as falo e acho bonito: pilar, beligerante, silhueta, aura, ventura, flora, potência, rejuvenescer, asseio, cárcere, audaz, lábios, esperança e eclesiástico, que me veio na cabeça naquele momento ao sair da eclésia e voltar para a rua. A última palavra pesquisada foi “memória” (do clube das engraçadas, do latim, memoria, da raiz memór (engraçadíssimo) recordação. Um dia, quem sabe eu repasse o caderno no qual anoto todas elas e possa redefini-las tal qual existem hoje, mas para mim. Hoje memória é consciência, vida e prisão.
Pensar sobre essa minha relação com a fé alterou minha disposição em continuar na Paulista. Ela já não me acolhia mais. Como fazem os viajantes ao chegar em um país desconhecido, receosos e com fome procuram algo comum ou conhecido de onde veio para se alimentar em surpresas, decidi, um quarteirão depois, voltar para a Alameda Santos e sua calmaria habitual e familiar. Na frente do conjunto nacional fui surpreendido com um fato intrigante. Dois dias atrás, ao passar ali, notei ao pé de um canteiro de árvore um lápis colorido, provavelmente de alguma aluna de nove anos de algum colégio próximo. Detalhes floridos adornavam a estrutura de madeira em tons púrpuras. Um detalhe a mais na paisagem da calçada. Algo que talvez eu me esquecesse no instante em que meus olhos não mais olhassem. E, caminhando por ali novamente me deparo com o mesmo lápis, no exato lugar no qual repousava DOIS dias atrás. Dois dia na vida de um lápis na calçada é tempo demais. O lápis heroico enfrentou as tempestades e as enxurradas, as vassouras dos garis, a curiosidade das crianças os focinhos dos cachorros e eventualmente suas urinas ácidas. Eu o notei em uma distância de pelo menos dez metros quando vi um ponto rosa no chão. Ao seu lado, olhei em volta e sutilmente lhe apliquei um toque com a ponta do pé a fim de ver se ele estava grudado, como algumas crianças gostavam de fazer com moedas para se divertirem com a esperança alheia. Mas o lápis esta solto e leve como é de sua condição cilíndrica. Pensei em pegá-lo mas percebi que aquilo era exatamente a graça da vida, os mistérios insolúveis a puxar nossa consciência para um gesto de simpatia com o sobrenatural, com deus. Uma saliência na cidade inexplicável pelo improvável. Engraçado como parametrizamos a realidade a ponto de nos surpreender com um fato destes. Só ela em dois momentos, mas a distância de tempo entre estes dois momentos fez com que eu imaginasse a batalha hercúlia daquele toco de madeira colorido. Não por ter visto, mas por ter imaginado. Poderia eventualmente aquele quarteirão ter sido interditado, o tempo parado ou as pessoas todas curiosas com uma outra coisa em outra direção cuja atenção livrava o lápis. Tudo podia, mas era pouco provável. Meu espanto constituía-se da ideia do que acontece eu desconheço. Resolvi deixar o lápis e passar ali no próximo dia de visitas para me certificar do andamento normal das regras do mundo. Quando alcancei a outra esquina meu celular tocou. Uma voz doce e feminina sussurrava do outro lado da linha perguntando por mim. Sim, sou eu, disse, e voz em um tom exitante e contente me disse. Sua mulher está aqui no Sírio Libanês, ela sofreu uma queda e entrou em trabalho de parto.
Eu estava no conjunto nacional, por sorte o hospital estava ali perto. Saí correndo e enquanto atravessava a paulista me dei conta da sorte da Nívea em trabalhar no hospital. Descendo a Frei Caneca a trotes pensei também no azar de ela cair, tentei imaginar as circunstâncias, mas pouco ou quase nada se fez na minha mente cuja função era processar o som da sola do me sapato se chocando com o chão, controlar minhas coxas brancas e flácidas que sacudiam a cada impacto, calcular os desvios forçados pelas senhoras no bazar da igreja rosa. Quando virei a esquina e comecei a descer a barata ribeiro e irrompi na recepção a moça me reconheceu e eu entendi de quem era a voz sensual e jocosa. Era de Elaine, amiga de Nívea, que passou o ano novo conosco em Ilha grande. Que dançou comigo no apagar das luzes, que bebeu comigo depois das três da manhã do primeiro dia, que me deixou enlouquecido de vontade de possuí-la e que só não teve seus lábios e corpo beijados por uma força descomunal e repressora dentro de mim e por uma criança de dois meses e meio dentro da minha mulher, que naquele momento dormia. Meu filho, expelido da mãe em algum lugar daquele hospital. Elaine tinha um riso repleto de prazer naqueles mesmos lábios. Talvez feliz de me ver desesperado, suado e desprotegido. Talvez feliz pela queda de minha mulher. Talvez as duas coisas ou nenhuma delas. Subi para a maternidade e ao chegar encontrei Marcos já saindo da sala. Só nos olhamos e ele disse: deu tudo certo, mas ela está sedada continuei e vi, por entre a antessala de vidro a criaturazinha enrugada e chorona mamando em um corpo apagado. Meu segundo filho, roxo como quem vem antes da hora, mas perspicaz e ágil. Ela caiu da escada. Me disse Marcos, médico e também conhecido. Tentei saber como, ninguém sabe, disse ele. A outra enfermeira a encontro desacordada e não tínhamos o que fazer. Mas eles vão ficar bem. Naquele momento vendo a cabeça dela enfaixada perguntei o que houve. Um trauma disse o médico, vamos fazer uma ressonância depois para ver se houve algum dano, mas acredito que não. Uma pergunta emergiu da minha boca sem ser pensada antes. Ela pode perder a memória? O médico levantou as sobrancelhas, inclinando o pescoço e torcendo a boca em um gesto de dúvida e ali, minutos depois de ver a alma do meu pai se apagar, ver a alma do meu filho se acender e olhar minha mulher eu não sabia de qual lugar vinham minhas lágrimas.

7 de janeiro de 2013

Galho seco


Quando acordei de noite havia flores púrpuras no quintal.
Pétalas de primavera que se desprenderam de algum sumidouro.
E na dança da gravidade repousaram no chão seco
O vento vindo da rua lhes deu uma rodopiada divina.
Cada giro roçava o piso em um acorde doce de pés caminhando

Chacoalho do desassossego.

E cada giro girava dentro de mim fazendo pulsar o calor da estrada.
Uma pétala, um giro, uma saudade daquilo que um dia sonhei
Há tempo, muito tempo rodei de braços em braços
e no quintal vazio sobrou o uivo de um galho seco.

Quando eu desapareci esqueci de tudo.
A flor que me visita não é minha.
A roupa que vesti não me serve mais.
Caibo dentro de um frasco miúdo.

Minha história se evaporou em memórias dos outros
E o que se lembram de mim não é
nem o que sou nem o que fui.
É um fiapo de algo inexistente
Não é nada. 
Fiz sonhos e planos para virar um resquício disforme.

Um fio de luz refratou o copo de café em borras de dor.
A casa é escura para quem acorda como se ainda dormisse.
Despertar todos os dias estrangeiro de si é dormir.
Terra de uma casa alugada infértil

A luz brotada se foi.

As pétalas roxas saíram de meus ramos
não há outra explicação.
Cada flor oferecida à uma paixão desnuda o caule



Sou a flora toda



Cada despedida arranca flores de mim






Sou um galho seco.






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25 de setembro de 2012

Sonho Vivo



Quando meus olhos em ti repousaram  nada vi.
Sua face humana e juvenil rasgou-me entretanto,
mais que o mistério de seu toque nunca tocado.

A plácida ternura dos curiosos olhando tudo de perto como quem  perde os pensamentos  no limbo das folhas.
Foste eu a folha e minhas veias mudariam  a cor da fauna em tons  vívidos de amor.

Eras demais para meu gesto moribundo, vivido, cansado e exasperado de iludir corações alheios
Eu não podia colocar-te em meu destino apesar da insistência do acaso.
E quanto mais decidia não te amar mais tua áurea me cruzava.

E a nuvem de teu cheiro de menina deixava os rastros de teus passos
E por vezes eu te seguia, Sonho Vivo, e tentava encaixar meus pés onde os teus pisaram instantes antes
E ao fazê-lo reproduzia em mim teu ritmo leve e esparso de sonho.

Por vezes eu dormia no caminho e tocavas  no meu ombro me acordando de um Sonho Vivo
Eu tentava em vão dizer-lhe coisas sem sentido apenas para que não houvesse entre nós essa distância do silêncio casto.

Deixei-me nos bancos pelas ruas para ver se me achavas e  me davas teu sorriso.
Esse sorriso acanhado contendo o segredo escondido da esperança na raça humana
Dilatando o universo infinito  e ao mesmo tempo o abraçando.

Quantas vezes recostei-me nas paredes escondido para te fitar além dos esquadros.
E te via quadriculado, Sonho Vivo, em um mosaico de tempo e espaço se afastando,
fragmentos de um desejo qualquer de não te amar.

Sob a árvore descansavas e em dias de verão amarravas a cabeleira longa e suavas de calor
E como a água que escorre de um sonho,
tua forma era a própria  realidade que o chão absorvia

Esperava que partisse para, mais uma vez te seguindo, ficar sob aquela árvore
E vi dali como o ângulo das coisas se curvavam a ti
Vi dali  a mancha escura dos quadrados que te olhava, carentes de luz
E vi dali a verdura das folhas.

A natureza era a tua amiga, não a minha
O bosque te envolvia a fim de proteger contra todas as mazelas a semente da beleza
Eras um sonho, Sonho Vivo, disputado por tudo
e talvez doarás por nada tuas retinas à corações foscos.
Teus sorrisos encontrarão outros sorrisos
E teus passos seguirão outros caminhos
Os quais jamais saberei.
Continuarei, entretanto, pisando no chão como se te seguisse
Por entre o vale dos desencontros,
Pois para mim em todo chão estas tu.

Não quero que teus olhos sofram por amores furtivos
Não quero que tua lágrima seja real pois se cair a Terra murchará
E estarás indefeso
e tudo será como tem sido.
Desolação, miséria e frio.

Guarda-te como busto incólume a ser olhado
A vida lhe trará razões demais e quando teu filho levar a primeira advertência do colégio tudo estará perdido.
Teu sonhinho se fará pessoa e vais morrer como um raio breve a trazer  luz e destruição


Eu entendo, Sonho Vivo, vieste na melhor hora alertar os seres dos cartões de crédito sobre a beleza que se apaga
Mas eu não poderei te amar
Teu feixe de luz apenas servirá para mostrar o tamanho da escuridão lá fora.
E depois te apagarás

Mas, se um dia retornares Sonho Vivo,
Pegue o que restar de mim e minha chaga
E devolva-me o teu perfume,
Dá-me a seiva dos bosques por onde andaste
Remonte o meu mosaico com cuidado para não quebrar-me
Deixe que eu te toque os ombros e te ensine voz dos homens
O brado fraco e rouco dos homens.
Me siga pela escuridão
Caminhe atrás de mim
Reproduza meus passos tortos
E sinta meu ritmo aleatório e bêbado
Subjugue o tempo para que ele seja nosso
Dá-te a mim como a semente que és tu
E faça brotar em minha ruína, a vida.

17 de julho de 2012

Manifesto anti nhem-nhem-nhem.


Sobre a proliferação do nhem nhem nhem, suas causas escusas e os argumentos contra sua disseminação indiscriminada.

Consideração preliminar.
Para tudo que está dito aqui há exceções. E para tudo que for dito até todo sempre haverá também.

Apresentação
Para fins deste tratado acadêmico-científico-apologético definimos o nhem nhem nhem como uma manifestação humana exacerbada de carinho para com as criaturas diversas do mundo, com destaque para os próprios seres humanos, animais de estimação diversos como cachorros, gatos e cavalos (no caso dos ingleses), vegetais mortos como rosas dentro de livros e objetos inanimados como tickets de cinema, ursos de pelúcia, papeis de bom bom e cartões postais.

Causas
Essas manifestações também conhecidas como “cuth cuth”, emos e, mais recentemente “Ohmg” ou Ooouuunn, encontram-se atualmente disseminadas na cultura global do século XXI e encontram suas causas em diversos aspectos:
  1. O superprotecionismo dos pais e mães da década pós revolução sexual que optaram por ter poucos filhos e os criaram como um tesouro a ser guardado para eles e não para o mundo.
  2. A tendência da biologia moderna em encontrar causas dos comportamentos humanos como a boemia, a psicose e a psicopatia relacionado às heranças genéticas. Esta defesa nociva faz muitas pessoas acreditarem que seus filhos serão alcoólatras, viciados e depressivos a revelia da criação dada. Esta perspectiva aumenta o zelo na criação da geração nehm nhem nhem.
  3. Esta geração tem tornado-se negligente à sua própria formação psicológica. Hoje, uma criança com qualquer desvio de comportamento é imediatamente encaminhada para um psicólogo. O profissional que mais cresce no mundo a medida que a incapacidade de lidar com o outro e consigo cresce também.
  4. A indústria cinematográfica, de seriados e novelas trabalha excessivamente com o esteriótipo cuth cuth, como um produto rentável. Não é novidade para ninguém, nos anais da publicidade que a partir do momento em que a sensibilidade humana é exaltada, sua suscetibilidade ao consumo aumenta. Prova deste fato encontra-se na grande maioria das propagandas de TV no Brasil.
  5. A união da criação protetora com o reforço cultural midiático a esta prática fortalece os movimentos Emos e legitimam o nehm nhem nhem como uma tendência global atual, o que defendemos que seja visto com cautela.

Diante deste quadro ultrassensível da esfera lacrimosa da sociedade alguns itens devem ser ponderados.

Artigos

  1. Filhotinhos de cachorros e de gatos crescem. Eles não entendem o que você fala com eles.

  2. A coca-coca quer um mundo feliz para que sua garrafa esteja na mesa de jantar.

  3. Roupas coloridas e letras de música sobre o sofrimento adolescente podem até ser verdadeiras, mas são sofrimentos adolescentes e roupas coloridas. Pedaços de pano não expressam uma relação sentimental.

  4. A memória é uma condição natural do ser humano e de outras espécies. Guardar objetos para te fazer lembrar de algo que foi marcante é colocar o passado acima do presente.

  5. (quase) Todos os credos, ideologias e nhem nhem nhens partem de uma premissa básica a ser contestada: o ser humano é decente. Sabemos que o mundo é desigual, que há fome, que há guerra, intolerância de todas as naturezas, individualidade em demasia, poluição global, capital de mercado, mendicância, corrupção e colonialismo (ponto). Postos os fatos, nossa tendência é fechar os olhos à nossa própria natureza e esquecer. O nhem nhem nhem com a foto de uma criança desnutrida na áfrica é senão, um nonsense.

  6. A morte é imponderável e definitivamente a maioria das culturas ocidentais não educou suas proles para este momento. O advento da “inteligência” humana, ou a capacidade de raciocínio foi um pacote comprado junto com a soberba de que somos especiais demais para apenas se decompor e aceitar a morte como natural.

  7. A monogamia se estabeleceu como um jogo de conveniências de famílias. Talvez a natureza do ser humano não seja essa. Com a mudança do quadro tradicional da família e propriedade, cada vez menos os matrimônios têm duração longa. A insatisfação crônica diante do posto move uma constante busca pelo novo o que torna os relacionamentos mais curtos. Entretanto, o choque entre o que acontece e o que historicamente “deveria” acontecer cria uma massa de homens e mulheres que “acreditam” na união eterna fazendo de tudo para que isso aconteça pela força do sonho, não pela realidade tangível.

  8. A vida não é uma novela ou um filme. As relações maduras passam por um período de conhecimento recíproco, o que quase nunca combina com nehm nhem nhem, mas sim com a seriedade de quem gosta, e portanto respeita a liberdade do próximo.

  9. O amor existe e é inegável. A paixão existe e é inegável. Isso não significa que tenhamos de lidar com ele como se lidássemos com os gatinhos, bebês, e camundongos. Seres humanos são racionais e emocionais, não panelas de cuth cuth.

  10. Ser sensível aos sentimentos e emoções não significa afinar a voz e entortar o pescoço.

  11. Ser interessado nas causas humanas não significa se emocionar com crianças fofas.

  12. A poesia lida com o universo das emoções na raiz da condição humana. Não confundir com correio elegante e frases de facebook.
Considerações finais
Não se pretende aqui pregar a racionalidade em detrimento das emoções, ao contrário pretende-se a não banalização deste e o aprofundamento da relações emotivas. O nhem nhem nhem é sobretudo um reflexo da superficialidade do universo dos sentimentos.

Este manifesto está aberto para alterações.
São Paulo, 17 de julho de 2012.

10 de maio de 2012

Interstício - capítulo 8

Chico, quis que lesse isso...talvez seja bobo, mas é o que sinto neste instante.

Embora eu seja parte do meu ambiente, fujo do mimetismo. Como escultura em alto relevo, busco me destacar.
Como nas minhas músicas favoritas, arrisco expressões e gritos que tenham algum efeito.
Como se pela visão de olhos bêbados, busco algum movimento para o meu caminho.
Como numa alucinação entorpecente, busco cores aleatórias.
No fim das minhas frases, porém, percebo que não sou nada de concreto, não sou nada audível, não sou um conselho sóbrio.
Alienada é o que sou.
Não porque tenha me alheado da vida e do mundo que acontecem e se deterioram.
Porém, enlouquecendo, deterioro-me com eles.
Sento-me em frente ao espelho, e já não tenho gosto de olhar para o que está diante de mim.
Mastigando estes pensamentos como se fossem areia, deixo-me atrair pelo chão, que divide seu frio com meu corpo.
Percebo que essa massa, cujo rosto eu não quero ver, cujos olhos não posso encarar, é o que realmente vive.
E então, espere!
Movimento-me, toco-me no colo, olho meus pés, meus joelhos, minhas mãos, meus ombros.
Enxergo do meu nariz à extremidade dos meus lábios.
Eu sou um instrumento, e não preciso ver minha imagem refletida para saber disso. Alcanço qualquer parte do meu exterior e também dos meus sentimentos.
Eu posso ser tudo aquilo que quiser!
Já não preciso sentir frio para saber que estou viva.
Descubro que posso rodear meus braços por um corpo abrasador tão logo me coloque de pé em sua direção.
Sou feliz assim que penso existir realmente.
Descubro a cada dia que o que posso está sob minhas escolhas, e não sob meus talentos. Não está sob uma vida de aparências.
Assim, deixo que minha imagem se vá no sumidouro de um espelho muito gigante, enorme, a ponto de não comportar o que sou.
Engolindo os segundos, e os dias, e os anos, degrado e regenero meus pensamentos sobre mim mesma, vivendo uma verdadeira roleta russa.
Ideias mil se me apresentam.
Espero privilegiar as boas, sempre!

“Chegando na encruzilhada
eu tive de resolver:
para esquerda eu fui, contigo.
Coração soube escolher”
(Guimarães Rosa)

Um beijo
Espero logo conhecê-lo
(Rara)

10 de abril de 2012

Quero a memória de onde não fui

Não. Nunca fui à Bahia, mas posso sentir...ou seria senti-la? No acorde agudo de uma guitarra velha, ou na letra atônita de uma alma desesperada.

Quem forma moral é quem mora na fôrma. Quem sai da fôrma desmoraliza...e forma muito mais. Informa, contorna, se torna...sai da água morna. Hoje sou baiano...de alma e de forma. E, para dizer a verdade nunca tive apreço pela Bahia, mas sua rauseixibilidade canta em mim mais alto que Bach, que escola de samba, que o ensurdecedor ruído do universo.

Ontem tive medo de perder a memória.

Me disseram que eram cem reais a menos para pular de paraquedas sem fotografia e filmagens...tive medo. Não quero fotos. Não quero filmes..quero minha memória..só! Tenho este direito.

À parte disso, sempre quis ser fotógrafo. Não de mim, nem dos outros...mas dos outros que existem dentro de mim. Olhar na íris da mazela de quem oprime. Ver o mundo como o menino que segue a trilha de formigas para ver qual a verdade por de trás delas. Quantas memórias de lugares jamais idos há na retina de quem fotografo sem conhecer? Quantas Bahias?

Quando ouço Raul cantar 'o trem das sete" sou capaz de estar dentro...talvez eu esteja. Um trem para a Bahia de Raul, de Vinicius, de Caimi, de Tom, Gil, Bethânia. Só a memória me permitiu dizer estes nomes e continuar batendo os dedos nesta máquina. Batendo os dedos na porta da Bahia. O convite ao determinado beco que eu já passei e que não tornará a ouvir os sons dos meus passos.

Não. Sem memória não há beco...será que ele lembraria? “E se lembrar o que lembraria?”...um pé que nunca foi à Bahia... nem a Portugal, nem aos vinhedos argentinos. Mas já esteve aonde sua sola encostou. E são lugares inimagináveis...indizíveis e, entretanto muito, mas muito dentro do nada.

Fernanda, Jehniffer, Caroline, Kelly, Raquel, Juliana, Karen, Nadja, Camila, Fabiana...hoje são sombras em relevo da minha memória de fatos e de desejos. Tudo que tinha que ser chorado já foi chorado. A alma da Bahia chora. E eu? Acho que chorarei o medo. Medo que a vida me roube a única coisa que tenho...a memória.

A condição de lembrar é estar vivo...será?

Não. Se eu sentisse estaria na Bahia. Ou será que estive? Cada vez que eu me despeço de uma pessoa, pode ser que essa pessoa esteja me vendo pela última vez...bem vinda seja. Quero andar também...me ensine. Quem sabe eu não chego na Bahia? Achar a memória daqueles que choro e perder a minha memória em torno de um toque de dedos, Em torno daquelas que não vivi mas me fazem viver...aquelas Bahias.

26 de março de 2012

Soneto do soneto antigo

Esbaldei meus versos enquanto pude.
Durante anos de minha curta estrada.
Palavras de amor que não eram nada;
delírios tolos da juventude

Pobre rima em ré entoada;
escondida atrás de um canto rude,
mas repleta de sede e atitude.
Transformou o acaso em coisa amada.

Hoje, quando aqueles versos revisito
vejo chama revestida de desejo
e mais astúcia do que hoje fito.

E, se o passado chegasse num lampejo,
desejaria que este verso aqui escrito
fosse mais inflamado do que hoje vejo.

O lado de dentro...sublime

O lado de dentro...sublime