Cada vez que recruto minhas loucuras, viagens e anseios com a experiência de qualquer coisa que não tenho, extraio disso uma destilação surreal. Escrevendo, sublimo essa coisa pelo ralo. A vagar por bueiros, ela encontra todo tipo de destilados da cidade, dos santos aos psicopatas. A amálgama humana se mistura, formando o mais intenso e real do pensamento e vai à superfície buscar as narinas dos transeuntes, mas são retidas pelas tampas dos bueiros que friamente censuram o regresso das idéias.
Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..
23 de junho de 2010
Há razão arrasando
18 de maio de 2010
O puteiro de Álvarez é o mundo
8 de maio de 2010
Resposta de uma dama à um Convite
encare a silhueta de minha cintura
morda os beiços de fissura
ao ver se despir essa dama
Vendo saltar da calça sua massa dura
envolvido por mim em minha trama
apagarei com saliva sua chama
escorrendo meus lábios pela espessura.
Umedecido, latejando e louco
descerei em seu mastro pouco a pouco
até que ele toque no meu Fundo
E, entre suspiros frementes e carnais
saberá que não consegue aguentar mais
e que sou Eu que te levo pro'utro mundo
29 de abril de 2010
Convite
Quero ver teu ombro se perder da alça
Teu vestido escorrendo com minha calça
E a doce curvatura de tua barriga
Tocará teus pés nos meus, descalça
Tua calcinha revelará a chama que abriga
E enquanto o seu fogo minha boca irriga
Deitados, inventaremos nossa valsa
Dos corpos molhados se fará o atrito
enlouquecidas, tuas unhas me farão arder
E na força do ardor te mostrarei o infinito
Até que, arfando... teu corpo começará a tremer
E libertará ...seu gozo... num frêmito... num grito
Que a cidade toda invejará nosso prazer
19 de março de 2010
História Rara (fragmentos de um roteiro)
EsEs
CENA 63: EXTERIOR. CALÇADA DO BAR – NOITE
PLANO ABERTO - BAR com mesas de madeira espalhadas na calçada. Os pedestres caminham entre as mesas lotadas de pessoas rindo e conversando.
ÂNGULO PLANO: Câmera caminha pela calçada até encontrar CHICO e CLAUDIO. Eles estão em lados opostos da mesa rente ao meio fio. Cada um folheia um livro e bebericam seus copos de cerveja.
CÂMERA OBJETIVA: CHICO olha as pessoas e para em Claudio (folheando o livro)
CHICO
Eu acho que não entendi muito bem o livro Claudio. Também não quero que você me explique. Para mim Rara de fato não parecia lúcida ao andar por Paris.
CLAUDIO
É! esse é um fato, mas vai além.
CHICO
Gostei muito daquela história de Rara ser o começo da palavra esperança e ela falar. Não por que é esperança, mas por que é o começo.
CLAUDIO
Se pensar bem, todos nós somos um começo a todo tempo. Ela mostrou isso.
CHICO
O ensaio sobre a loucura também achei muito bom.
CLAUDIO
Essa é uma outra coisa. Afinal ela estava louca ou não? O que é a loucura. Os dois estavam loucos naquela história.
CHICO
E onde está o acaso objetivo nisso?
CLAUDIO
Ora, todas as coisas que ela vai encontrando, as fotos que vai tirando, as estátuas, quadros, etc. Tudo isso vem ao acaso e constrói ela de uma forma.
CHICO
Vou tomar a liberdade de interpretar de outra forma. Mas entendo o que está falando.
CLAUDIO
Interprete como quiser, afinal as pessoas também são como quadros, estátuas e fotos. Constroem a gente. Assim como interpretamos a arte interpretamos os outros.
CHICO
As pessoas são arte, mas a obra delas não é.
CLAUDIO
Tudo se interpreta.
CHICO
Eu leio isso aqui e não me faz sentido nenhum. Esse livro que você trouxe. Olha, e “a insígnia do jarro ateniense” que complicação.
CLAUDIO
Tudo bem. E quem disse que deve fazer sentido?
CHICO olha o livro, o copo, acende um cigarro olhando para CLAUDIO e levanta a mão indicando ao garçom mais uma cerveja. Olha novamente para CLAUDIO e solta a fumaça densa pelo nariz.
CHICO
Tudo bem, não precisa fazer sentido. Me esforço para aceitar essa idéia. Mas se não fizesse sentido essa escola não seria teorizada, não teria um nome. Ou este nome engloba todas as coisas que não fazem sentido?
CLAUDIO
Não, existem pontos em comum que formatam essa escola. E não é não-fazer-sentido que dá sentido. Eu só disse que isso não importa.
CHICO
Certo.
CLAUDIO
Por exemplo, às vezes você está lendo e sua cabeça te transporta para outro lugar que te diz uma coisa. Quando você vê está no fim da página e não lembra nada do que leu. Mas sua cabeça estava em algum lugar.
CHICO
Isso me acontece de vez em quando.
CLAUDIO
Isso é o que eu mais gosto nesses poemas surrealistas.
CHICO
haha, o que você mais gosta não é exatamente dele. No mínimo intrigante.
CLAUDIO
O que mais gostamos é o que nos desperta, não a natureza intrínseca das coisas.
CHICO(pausa longa)
É! o que eu gosto nessa cerveja não é o gosto ou a cor. É o efeito!
GARGALHADAS
CLAUDIO
E você está fazendo exatamente isso com ela.
SILÊNCIO
CHICO
O quê? Como assim?
CLAUDIO
Você está apaixonado por uma pessoa que sequer existe pra você, embora exista para o mundo. A única coisa que você conseguiu dela foi que seus olhos a vissem, nada mais. E ainda assim você está apaixonado. Talvez o que você mais goste não seja exatamente dela. Intrigante isso né?
FUSÃO PARA:
CHICO e CLAUDIO se despedindo, meio bêbados. O bar vazio assim como as ruas. Cada um vai para um lado.
PLANO ABERTO: CHICO caminha sorrindo para casa.
21 de janeiro de 2010
Viver
Ah! Que brisa calma vem soprando
no fúnebre abismo de edifícios;
Poucos a notam, seguem andando;
passo a passo unidos em bando,
conduzem seus corpos aos sacrifícios.
- Vão para onde? Porque correr?
se é escasso o tempo e a morte é certa.
parai então, deixai o vento bater;
jogue vossa consciência para ele varrer.
Notai que a rua é não mais deserta.
A brisa que te sopra o semblante
é a mesma que contorna o mundo;
trás o aroma das vidas adiante,
o vôo do pássaro distante,
E as portas do breu profundo.
Olhai a vastidão da avenida.
Há vida sim no barulho desses passos;
Na conversa alegre e distraída,
No choro da criança nascida,
Nos calorosos e cândidos abraços.
Levantai agora vossos olhos lentamente,
que o tempo é cego enquanto pisa.
Buscai o amor e alegria somente.
E antes que o ar se faça ausente,
Olhai o céu e aproveitai a brisa.
(tirado do baú. )
24 de novembro de 2009
A triste história de Marcos Whraiter
10 de novembro de 2009
João da Britadeira
Tinha problemas de tremedeira.
Mas sempre teve os pés no chão
Nunca faltou com seu dever
Nunca fez brincadeira
Nunca demonstrou emoção.
Chegava no trabalho adiantado
Encarava nos olhos a massa de cimento
E ligava sua britadeira.
Era caco pulando, cortando a mão
Uniforme cinza, olho atento
Dentes a mostra... rosto esticado.
De chão ele conhecia;
Alisava, batia, cheirava
Ouvia o eco do batimento.
Chegou em casa certo dia
Sentou no sofá como de costume
Mas seus pés estavam balançando.
Sua mulher não tinha tino de escrava
Espalhou seu perfume em casa
Fugiu pro outro lado do morro
E agora, o chão que João construiu
Alto e imponente na favela
Só servia pra pedir socorro.
Pra quem tanto conhecia
Nem sabia onde punha os pés
E onde amarrava seu gado
“Mas essa coisa de saudade
Parece até água benta
Amolece até cajado”
E é à saudade que se afivela
Que João mandou um recado.
“Chão de polenta ainda não existe
E não vou ficar mais triste
Prefiro o chão azulado”
12 de outubro de 2009
A-mulher-que-não-conseguia-se-entender
Mestre Zen - Traga sua mente perante a mim e eu a pacificarei.
Monge - Mas quando busco minha própria mente não posso encontrá-la.
Mestre Zen - Pronto, pacifiquei sua mente."
(koan zen budista)
O lado de dentro...sublime