Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..

23 de junho de 2010

Há razão arrasando



Se me perguntarem o que é a vontade
Direi não sei! Que destrate!
Jamais alguém conseguirá dizer...seria falso.
Se mesmo assim você ouvir isso por aí, desconfie.
A vontade é como o amor, a arte....lençol amassado
panfleto branco, almanaque invisível.
A vontade é fumaça de pedra, cd de geléia, klakson......
neologismo nada palpável

Para mim pensar nisso é não pensar.

Um dia ouvi na TV um moço que dizia:
“devemos abraçar o Cosmo”
mas qual Cosmo? Meu avô ou o zelador do meu prédio?
E que tal “devemos buscar o amor” ou “entender a arte”?
Durante muito tempo quis entender a arte e
busquei também o amor nos corpos úmidos de mulheres....
bobagem...besteira

Que vontade eu tenho de escrever 1/3 das poesias que meus olhos vêem sempre que se abrem
rs... e veja que aquilo que escrevo
não é
nem poesia, muito menos arte, quiçá...vontade

E por falar em vontade,
Confesso. Ando cheio de furores libidinosos.
Vontade de comer minha razão.

Ela anda me perseguindo com causas e efeitos
anda me criando muitas culpas.
Olho as manifestações morais do mundo e
minha vontade de comê-la cresce.
Vejo uma mãe dizendo o que é certo à sua filha
e vejo a morte da arte
A razão subjulgando a sensação....sua cria

Estou excitado, quero comê-la.

Depois que eu comer a razão pode me perguntar o que é a vontade
responderei com um sorriso e um olhar.... pura arte
Depois teria que me mudar para outro planeta.
Se não causaria um grande mal às pessoas do “certo e errado”
Os faria sofrer pelos meus atos orgânicos.

Ah, essa culpa...tão bem alimentada.
A farei parar de engordar e beijar a relva...... tocar o chão
Enquanto te culpam, culpa minha....
mostre a eles que ainda somos bichos.
Primatas que elaboram suas prezas e procuram um sentido para a vida
busca vã.
Instinto, vontade, desejo, gozo, prazer....coca-cola

Não tente entender a loucura de alguém que come sua razão.
Será falso.
Como o é tentar entender a arte, o amor....a vontade.
Pense aliás na loucura...será melhor,
mas cuidado.

Depois que eu comer minha razão terei de me mudar.
Para um universo nada sólido, talvez.
Onde não existam palavras.
Onde eu esteja só, talvez
Mas a solidão é um hábito
Há mais alguém aí que queira cremar sua consciência?
Se eu comer minha razão estarei só
Sozinho como a pequenina formiga que invejei hoje de manhã na pia da cozinha
E Há tantas pias pelo mundo
Tanto mundo pelo ralo
Tanto ralo por onde nascem formigas
E aquela formiguinha grandiosa
Ali........ logo na minha pia sem mundo
Por mais que ela tenha vontade
Jamais, jamais chegará sequer à pia do meu vizinho

Ora, se não somos formigas
Formigas sim, cujas pernas são os pensamentos
E nossas curtas pernas não chegam à pia do vizinho
Mas como boas formigas, persistentes e pretensiosas
Achamos que podemos explicar a arte, a vontade e o amor.

Eu Vou para a galáxia fluida e distante do Sentir,
Talvez um outro mundo ou ralo ou pia
Talvez do vizinho ou da vizinha
Talvez do cosmo ou do adalto
Talvez da nívea, alva como a neve

E, estando lá, se um dia alguém me alvejar
tocar meus olhos perguntando

“o que é a vontade?”

me morrerei diluído em lágrimas.
Chorarei a mágua de meu mundo
Descendo pelo ralo da pia
Sem angustiar um só pio
Mesmo sem ralo
Mesmo sem pia
Mesmo sem pio
Mesmo sentindo
Só sentindo
Sozinho
Só.

18 de maio de 2010

O puteiro de Álvarez é o mundo

Saímos do pão de açúcar da Consolação, cada um com uma latinha na mão, cerimônia do soluço nicotinesco.... alguém acende um cigarro, de repente mais um acende, mais um, mais outro, vai contagiando. O Armando queria ir no puteiro pra comemorar o aniversário, mas ninguém tinha mais de dez reais..acabamos descendo a augusta pra achar algum boteco. Luzes rosas e azuis cortando a tristeza das putas, aquela tristeza sexual parecida com o desespero de foda meia boca de porteiro da São João deixando seu dinheirinho numa mão gosada. Cheiro de sauna na calçada e nós loucos pra ficar completamente bêbados. Aí rapaziada, vamo vê uma buceta hoje? Arrepiá, a casa tá cheia. O cara já tava baixando a oferta, quando o Álvarez chegou – tô chamando ele de Álvarez porque acho que ele tem tudo a ver com Álvares de Azevedo, menino prodígio, filosofia ambulante das mazelas da consciência humana. “Pronto! Vocês cinco entram, pagam quinze reais cada um, e bebem cerveja à vontade até as cinco da manhã”....sabe aquela alegria compartilhada? Todo mundo rindo por dentro, com a sensação de ... puta que o pariu, a noite tá feita!, esse cara não sabe o prejuízo que vai tomar hoje, ou nós vamos tomar o prejuízo dele. Caçamos moedas no fundo da bolsa, do bolso, do vaso, o Kiko Lang emprestou pro Álvarez entrar e fomos. Eu sabia que o Alvarez ia causar surpresa naquela noite.
Alvarez estava há um mês morando comigo e com o Faria na kitinetch da Consolação, conheci naquela cidade horrível que um dia morei lá no interior. Cara inteligentíssimo, culto, leitor e pra infelicidade dele trabalhava numa lan house no meio do nada. De vez em quando jogávamos basquete ou tomávamos umas cervejas na frente da igreja. Ele gravou um CD com Jethro Tull, AC/DC, Chopin e mais um monte de coisa misturada. Eu ouvia aquilo feliz na sacada de frente praquele lixo do terreno em cima do armazém da Maria, uma portuguesa chata pra caralho que ninguém entendia o que ela dizia, mas era a cerveja mais barata e vendia pra molecada cigarro e cachaça.
Uma semana antes estávamos eu, o Faria e o Luiz num bar na esquina da Consolação com a Santos discutindo alguma coisa como homofobia, ou sei lá o quê.... e surge o cara com suas calças de Moleton e uma bolsa a tiracolo. Cabelo oleoso na frente da cara e tomando uma bohemia. Que porra é essa!? Tá perdido meu filho? Senta aí toma uma com a gente. Logo ele saca mais 4 latinhas da bolsa e abre um sorriso que depois vira olhar de esgueio pra todo mundo. Era um tipo sensível, na da a ver com alcoolismo. Tem gente que acha ruim o camarada beber sozinho, é nada...pra pensar na vida, se inebriar levemente organizando as idéias como diria Chico Science, vulgo Chico Ciência...ciência do mundo velho Chico!!.
Quando veio morar com a gente, falei zuando que aquilo era diferente de cidade pequena, São Paulo era uma pedra que cagava nota de cem, com um monte de cubo de gelo bem vestido pela calçada, as pessoas não se olhavam, cheio de moribundo feito a gente e de moribundo sem razão, que não olha pra ninguém. Que aqui ele ia conhecer a solidão na multidão, esses papos semidepressivos que todo mundo um dia chorou no bar depois da manguaça. O cara levou a sério, ficou triste, andava com 5 mangos no bolso da direita, moedas na esquerda e os documentos na meia em plena avenida paulista às nove da noite....se o primeiro malandro chegasse... tó, só tenho cinco conto...e vaza, depois, tó essas moedas aí! Maior pressão na cabeça de um ser humano, relaxe.Tinha a impressão de que o medo era sua forma de consciência naquela babilônia em que foi parar. E quando só o medo é o que dá consciência pro cara ele tá na corda bamba da lucidez.
Falou que queria ser jornalista, puta mente de filósofo vai escolher jornalismo meu! Na pegada do mal do século, Baudelaire, Rabelais Schopenhauer, Alan Poe, fez teatro, cara das artes vai escrever dos outros ...cria teu mundo, elabora suas bolhas ideológicas, transcende .... você troca óculos e não fabrica óculos, entendeu? E tinha uma namorada gatíssima ainda por cima, a ponto de colocar eu e Faria em longas discussões sobre como o desejo humano é uma coisa foda. Porra, o cara chegava de noite, deitava, acordava, colocava o tênis, jogava um desodorante avanço em baixo do braço e saía. Passei três noites vendo esse ritual, pensei esse cara sublimou, banho é coisa pra quem tem tempo. Fiquei seriamente reflexivo sobre as reais necessidades da nossa vida com a presença de Álvares.
E naquele dia mais algumas de suas proezas, derivadas de seu imenso coração, apareceram no puteiro. Cerveja na faixa até as cinco e era dez e meia, só podia terminar com o lirismo dos bêbados. Álvarez ficou uma hora e meia conversando com uma puta simpática e bonita. Enquanto todo mundo pedindo mais copo, fazendo pose de que tinha dinheiro só pras primas darem aquela apertada no nosso pau. Coitado de mim, uma venezuelana de dois metros de altura com uma mão do tamanho de um livro didático e eu desprevenido, sem intenção sexual nenhuma, claro que ela ia fazer aquele comentário quando procurou algo no meio das minhas pernas. Depois da uma hora e meia o Álvarez chega e diz que tava entrevistando a puta, queria saber sobre a vida dela e a coitada achando que ele queria fazer um programa. E o cara ficou emotivo mesmo, disse que queria dar um abraço nela, só isso, um abraço. E deu, ficou feliz saltitante, bebeu a noite toda, cagou de porta a Berta, abraçou um boliviano enquanto um casal trepava, por fim vomitou na porta do bar e foi levado embora pelo Kiko Lang. Dormiu, acordou... dois meses depois foi embora, muita pressão, bebíamos muito naquela época. Uma alma ímpar, melhor aproximação de humanismo que já conheci, um ser daqueles que nos orgulhamos de trombar pela vida, o invejo até hoje, espero que esteja bem.

8 de maio de 2010

Resposta de uma dama à um Convite

Ah, amigo. Fique deitado em sua cama
encare a silhueta de minha cintura
morda os beiços de fissura
ao ver se despir essa dama

Vendo saltar da calça sua massa dura
envolvido por mim em minha trama
apagarei com saliva sua chama
escorrendo meus lábios pela espessura.

Umedecido, latejando e louco
descerei em seu mastro pouco a pouco
até que ele toque no meu Fundo

E, entre suspiros frementes e carnais
saberá que não consegue aguentar mais
e que sou Eu que te levo pro'utro mundo

29 de abril de 2010

Convite

Chegue mais perto... tire a roupa linda amiga
Quero ver teu ombro se perder da alça
Teu vestido escorrendo com minha calça
E a doce curvatura de tua barriga

Tocará teus pés nos meus, descalça
Tua calcinha revelará a chama que abriga
E enquanto o seu fogo minha boca irriga
Deitados, inventaremos nossa valsa

Dos corpos molhados se fará o atrito
enlouquecidas, tuas unhas me farão arder
E na força do ardor te mostrarei o infinito

Até que, arfando... teu corpo começará a tremer
E libertará ...seu gozo... num frêmito... num grito
Que a cidade toda invejará nosso prazer

19 de março de 2010

História Rara (fragmentos de um roteiro)

EsEs

Estive ausente um tempo de escrever aqui, mas não parei. Estou em um desafio de escrever o roteiro de um filme. Um trabalho grande e um ótimo exercício. Postarei aqui uma cena que está em uma das muitas que já estão escritas. Em breve, quando concluir a estória, pretendo publicar para as três pessoas que lêem esse Blog

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CENA 63: EXTERIOR. CALÇADA DO BAR – NOITE

PLANO ABERTO - BAR com mesas de madeira espalhadas na calçada. Os pedestres caminham entre as mesas lotadas de pessoas rindo e conversando.

ÂNGULO PLANO: Câmera caminha pela calçada até encontrar CHICO e CLAUDIO. Eles estão em lados opostos da mesa rente ao meio fio. Cada um folheia um livro e bebericam seus copos de cerveja.

CÂMERA OBJETIVA: CHICO olha as pessoas e para em Claudio (folheando o livro)

CHICO

Eu acho que não entendi muito bem o livro Claudio. Também não quero que você me explique. Para mim Rara de fato não parecia lúcida ao andar por Paris.

CLAUDIO

É! esse é um fato, mas vai além.

CHICO

Gostei muito daquela história de Rara ser o começo da palavra esperança e ela falar. Não por que é esperança, mas por que é o começo.

CLAUDIO

Se pensar bem, todos nós somos um começo a todo tempo. Ela mostrou isso.

CHICO

O ensaio sobre a loucura também achei muito bom.

CLAUDIO

Essa é uma outra coisa. Afinal ela estava louca ou não? O que é a loucura. Os dois estavam loucos naquela história.

CHICO

E onde está o acaso objetivo nisso?

CLAUDIO

Ora, todas as coisas que ela vai encontrando, as fotos que vai tirando, as estátuas, quadros, etc. Tudo isso vem ao acaso e constrói ela de uma forma.

CHICO

Vou tomar a liberdade de interpretar de outra forma. Mas entendo o que está falando.

CLAUDIO

Interprete como quiser, afinal as pessoas também são como quadros, estátuas e fotos. Constroem a gente. Assim como interpretamos a arte interpretamos os outros.

CHICO

As pessoas são arte, mas a obra delas não é.

CLAUDIO

Tudo se interpreta.

CHICO

Eu leio isso aqui e não me faz sentido nenhum. Esse livro que você trouxe. Olha, e “a insígnia do jarro ateniense” que complicação.

CLAUDIO

Tudo bem. E quem disse que deve fazer sentido?

CHICO olha o livro, o copo, acende um cigarro olhando para CLAUDIO e levanta a mão indicando ao garçom mais uma cerveja. Olha novamente para CLAUDIO e solta a fumaça densa pelo nariz.

CHICO

Tudo bem, não precisa fazer sentido. Me esforço para aceitar essa idéia. Mas se não fizesse sentido essa escola não seria teorizada, não teria um nome. Ou este nome engloba todas as coisas que não fazem sentido?

CLAUDIO

Não, existem pontos em comum que formatam essa escola. E não é não-fazer-sentido que dá sentido. Eu só disse que isso não importa.

CHICO

Certo.

CLAUDIO

Por exemplo, às vezes você está lendo e sua cabeça te transporta para outro lugar que te diz uma coisa. Quando você vê está no fim da página e não lembra nada do que leu. Mas sua cabeça estava em algum lugar.

CHICO

Isso me acontece de vez em quando.

CLAUDIO

Isso é o que eu mais gosto nesses poemas surrealistas.

CHICO

haha, o que você mais gosta não é exatamente dele. No mínimo intrigante.

CLAUDIO

O que mais gostamos é o que nos desperta, não a natureza intrínseca das coisas.

CHICO(pausa longa)

É! o que eu gosto nessa cerveja não é o gosto ou a cor. É o efeito!

GARGALHADAS

CLAUDIO

E você está fazendo exatamente isso com ela.

SILÊNCIO

CHICO

O quê? Como assim?

CLAUDIO

Você está apaixonado por uma pessoa que sequer existe pra você, embora exista para o mundo. A única coisa que você conseguiu dela foi que seus olhos a vissem, nada mais. E ainda assim você está apaixonado. Talvez o que você mais goste não seja exatamente dela. Intrigante isso né?

FUSÃO PARA:

CHICO e CLAUDIO se despedindo, meio bêbados. O bar vazio assim como as ruas. Cada um vai para um lado.

PLANO ABERTO: CHICO caminha sorrindo para casa.

21 de janeiro de 2010

Viver

Ah! Que brisa calma vem soprando

no fúnebre abismo de edifícios;

Poucos a notam, seguem andando;

passo a passo unidos em bando,

conduzem seus corpos aos sacrifícios.


- Vão para onde? Porque correr?

se é escasso o tempo e a morte é certa.

parai então, deixai o vento bater;

jogue vossa consciência para ele varrer.

Notai que a rua é não mais deserta.


A brisa que te sopra o semblante

é a mesma que contorna o mundo;

trás o aroma das vidas adiante,

o vôo do pássaro distante,

E as portas do breu profundo.


Olhai a vastidão da avenida.

Há vida sim no barulho desses passos;

Na conversa alegre e distraída,

No choro da criança nascida,

Nos calorosos e cândidos abraços.


Levantai agora vossos olhos lentamente,

que o tempo é cego enquanto pisa.

Buscai o amor e alegria somente.

E antes que o ar se faça ausente,

Olhai o céu e aproveitai a brisa.


Vitor Fabricio (27/06/2005)

(tirado do baú. )

24 de novembro de 2009

A triste história de Marcos Whraiter

Como se fosse verdade, Marcos Whraiter era um homem de coração bom, negro, de beiços salientes, cabeça ovalada e grande, ligeiramente gordo, sorriso largo e gargalhadas rarariantes. Bom de papo, boa gente, honrado como aprendera a ser, divertido e gozador como quis ser. Como se fosse verdade, tinha uma bela casa num bairro nobre de uma cidade pobre. Pobre de almas. Uma cidade de gente feia. Uma cidade estranha, sem propósito, habitada por pessoas sem propósito. Uma cidade pequena, no coração de algumas quase-montanhas, o suficiente para que deus não a visse, embora cintilasse no topo do morro uma cruz de neon azul, que se podia ver de outros morros nas noites de paz. Uma cidade onde, diziam os romeiros, o diabo fazia seu laboratório. Uma cidade na qual as leis pouco se faziam valer.
Como se fosse verdade, Marcos estava ali sob o marco do acaso. Sua mãe, dona de casa, seu pai, um policial aposentado que, talvez como todo policial aposentado, escolhera num classificado do jornal uma cidade pequena para descansar e criar sua prole. Talvez, se o jornal não tivesse publicado; talvez, se lesse outro jornal; talvez, se seu pai não fosse policial, nem estivesse aposentado; talvez, se sua mãe não fosse dona de casa, estariam em outro lugar. Talvez, mas estavam ali. Como se fosse verdade, Marcos estudou em uma boa escola, como essas de cidades pequenas, como essas de gente que vinha do sítio, como essas de professores que conheciam cada aluno como seus vizinhos. Marcos não tinha tino para estudos, aproveitou muito bem a escola para fazer amizades, arrumar brigas, pular o muro para comprar cigarro. Talvez, se Marcos não tivesse uma família tão autoritária, teria tino para estudo. Talvez sua facilidade para amizades não o fizesse conhecer Caio e Olavo. Cúmplices e parceiros. Talvez outras amizades o fizessem caminhar para outro lado, talvez não pulasse o muro para iniciar sua vida alcoólica. Talvez.
Como se fosse verdade, certo dia na aula de sociologia, Marcos escrevera de coração aberto aos seus colegas tudo aquilo que sentia, disse que amava, que adorava, elogiou, demonstrou inveja em alguns momentos e certamente surpreendeu a todos com seu testemunho de bondade. Há quem diga que houve ali um esguicho de liberdade por entre as grades de seu coração. Uma rara ocasião. Talvez por estar no 3° ano, prestes a ganhar o mundo daquela cidade pequena, Marcos se permitira.
Se estivesse em outra cidade que não naquela encravada em montes de terra e pedra, ele poderia ver horizonte em sua vida e planejar um futuro. Talvez não entrasse nos escuros dos becos da periferia com Caio e Olavo. Talvez não pisasse nas plantações de maconha, nem se inebriasse com a cachaça. Talvez não se apaixonasse.
Nada como uma mulher para colocar nos trilhos a vida de um homem sem horizontes. Mariana era bonita, um troféu, como diziam, algo para deixar destemido qualquer homem, ainda mais um homem de posses apegadas como Marcos. Talvez, se Marcos não a tivesse conhecido, não teria se sentido mais homem do que era, talvez não brigasse com Olavo, talvez não ficasse paranóico, muito menos roubasse a arma do pai e tentasse matar Olavo no meio da praça central. Talvez, se não estivesse naquela cidade, nem seu pai tivesse uma arma, ele não teria estampado a capa do jornal naquele ano. Ruim de tiro, como nunca fora sua habilidade, não matou ninguém, nem Olavo, mas feriu transeuntes. Talvez não perdesse o amigo nem a mulher nem a liberdade.
Como se fosse verdade, Marcos não teve apoio de sua família. Seu pai, acostumado a prender bandidos, se sentiu roubado duas vezes. Pela arma e pelo filho. Como se fosse verdade, ele caíra nas mãos dos débeis, entregara sua consciência ao carcereiro. Sua razão não era tão forte nem pesada, por isso voou para longe. Talvez, se tivesse um ombro para se apoiar, não a deixaria escapar, assim não precisaria visitar o lar das pessoas sem lucidez. Como se fosse verdade, o fio de bondade que restara em Marcos virou pedra. E com uma pedra e com a lucidez de poucos, deferiu golpes na cabeça do vigia do hospício, roubando a vida dele em troca da alforria.
Como se fosse verdade, Marcos perambulou maltrapilho, sem casa, sem amigos e sem mulher. Mas seu universo se restringia àquela cidade encravada num monte de terra e ali revisitou as grades algumas vezes. Talvez, se seu universo não fosse aquela cidade, Marcos estaria em outra vida. Talvez, se Marcos não tivesse conhecido Caio e Olavo, não estaria completamente drogado e bêbado naquela noite de setembro. Talvez, se não tivesse conhecido Caio, este não pararia diante daquele quase-ser naquela noite. E se Caio não tivesse uma namorada que conhecera naquela cidade no meio do nada, nem se não estivesse voltando da casa dela naquele horário, talvez não encontraria Marcos. Talvez, se fizesse um outro caminho ou morasse em outro lugar, não encontraria seu amigo jogado na calçada. Talvez, se Marcos tivesse de volta um lar, não estaria bêbado nem com aquela fome de dois dias. Talvez, se não tivesse fome, não pediria para Caio lhe comprar comida às seis da manhã. Talvez, se Caio não tivesse achado uma nota de dois reais segundos antes numa rua que não costuma passar, não compraria um pão com mortadela nem alimentaria aquele quase-ser que mal conseguia falar. Talvez, se não fosse verdade, Marcos não teria morrido engasgado com o pão, jogado na calçada de uma cidade onde talvez não morasse, com a fome dos sem família e na companhia da sua frágil mente incapaz de mastigar um pão. Talvez... talvez ... e ainda há quem creia que não seja verdade.

10 de novembro de 2009

João da Britadeira

João,

Tinha problemas de tremedeira.

Mas sempre teve os pés no chão


Nunca faltou com seu dever

Nunca fez brincadeira

Nunca demonstrou emoção.


Chegava no trabalho adiantado

Encarava nos olhos a massa de cimento

E ligava sua britadeira.


Era caco pulando, cortando a mão

Uniforme cinza, olho atento

Dentes a mostra... rosto esticado.


De chão ele conhecia;

Alisava, batia, cheirava

Ouvia o eco do batimento.


Chegou em casa certo dia

Sentou no sofá como de costume

Mas seus pés estavam balançando.


Sua mulher não tinha tino de escrava

Espalhou seu perfume em casa

Fugiu pro outro lado do morro


E agora, o chão que João construiu

Alto e imponente na favela

Só servia pra pedir socorro.


Pra quem tanto conhecia

Nem sabia onde punha os pés

E onde amarrava seu gado


“Mas essa coisa de saudade

Parece até água benta

Amolece até cajado”


E é à saudade que se afivela

Que João mandou um recado.


“Chão de polenta ainda não existe

E não vou ficar mais triste

Prefiro o chão azulado”

12 de outubro de 2009

A-mulher-que-não-conseguia-se-entender




"Monge
- Mestre, minha mente não tem paz. Por favor, pacifique minha mente.
Mestre Zen - Traga sua mente perante a mim e eu a pacificarei.
Monge - Mas quando busco minha própria mente não posso encontrá-la.
Mestre Zen - Pronto, pacifiquei sua mente."
(koan zen budista)





Ela não conseguia. Toda vez que que os ventos de suas lembranças lhe sopravam ouvia as fábulas saltarem da boca da professora e lhe invadirem com furor. Via suas próprias mãos tecendo palavras corridas no seu diário. Sentia o frio no estomago ao toque despretensioso daquele jovenzinho da sexta série, cujo nome ela não lembrava, mas o sorriso jamais esquecera. Via os lânguidos beijos dos atores no cinema. Sentia na ponta do lábio seu primeiro beijo atrás da escola. Sentia também como se fosse ontem seus dedos descobrindo o colo e a sensação nova que aquilo lhe causava. Lembrou-se de José e de como ele descobriu seu corpo enquanto este crescia, e de como fora boba ao brigar com ele por tantas besteiras. Lembrava-se com clareza de como José representou uma mudança em sua vida e aquela raiva por ele fez com ela temesse sofrer novamente. Lembrava de seus pequenos casos e como ela acabara tentando mais entender a si do que se levar pela sua libido. Via também suas discussões calorosas com Marcela e Gabriela, amigas até hoje, mas que nunca a entenderam de verdade. Lembrava-se do exato dia em que conheceu casualmente a psicóloga da escola e que teve uma certeza irrefutável de que era isso que queria ser. E de como a obstinação do futuro fez os anos correrem velozmente para ela. Como Antônio também curvou os trilhos de sua vida por mais de três anos até um dia ir embora. E toda vez que lembrava-se de Antônio tinha uma vontade enorme de revê-lo, de poder tomar uns drinks e falar da condição humana como outrora ou falar sobre o que um sentia pelo outro fumando um cigarro após o sexo naquela casa suja.
Ainda assim ela não conseguia. Não conseguia entender como foi engravidar de um homem tão vazio, ainda que em suas longas reflexões chegou a pensar que era premeditado. Que ela precisava de uma companhia ou algo a que desse sentido para continuar a vida, indiferente de quem fosse o progenitor. E soube mais tarde que pensou mais em si que em seu filho, mas ele estava adulto e criando seus próprios trilhos. Às vezes ela se sentia absurdamente nociva quando tecia conclusões às suas pacientes. Sua vertente para os estudos lhe conferiu um leque enorme de teorias psicanalíticas e inúmeras técnicas para entender a mente humana. Seu hábito de leitura a tornou em uma excelente oradora, de modo que até errada conseguia parecer correta. Sua garra para criar o filho sozinha a tornou mais rija, forte a ponto de conseguir entrar nos olhos de quem conversava sem esforço e fazer com que este falasse sobre sua vida. Ela não tinha dúvida que estas qualidades a trouxeram para sua condição de profissional respeitadíssima e muito valorizada. Mas mesmo assim ela não conseguia ainda entender sua vida, sua cabeça e o sentido que deveria haver para aquilo tudo. Passava horas lendo literaturas e encarnava aqueles personagens com ânsia. Concluiu depois de muito tempo que não sabia o que ela era e o que queria, sua vida era a dos outros, ela era o outro.
Como um daqueles dias normais de sua tediosa rotina estava ela dirigindo seu carro a caminho do consultório quando as nuvens tomaram corpo no céu. Negras, densas e fúnebres. Uma tarde de verão em São Paulo virou noite. A Marginal de repente estava parada. Carros a toda volta com pessoas temerosas sem conseguir sair do lugar, presas por uma condição do meio. E ela se sentiu encarcerada como nunca antes. A chuva começou a cair com fortes ventos e uma força inexplicável. Não era possível ver o carro a frente e, sozinha dentro do seu automóvel, o sentimento de prisão foi sufocando-a. O suor corria-lhe o busso. Ela estava presa sem possibilidades de sair, desesperada, coração palpitando quando um vulto passou ao seu lado em meio a tempestade. Um homem a passos lentos, descalço, sujo e com uma pipa de plástico na mão. Ela forçou a vista para entender aquela situação, viu que de fato era uma imagem real, havia mesmo um homem na tempestade. Como se uma pedra acertasse sua cabeça com violenta força percebeu em todos os anos de sua vida não havia se dado conta. A prisão estava dentro dela. Uma fortaleza edificada a duras penas pelas suas tênues lembranças. Um choque de clareza invadiu seu peito. Viu o pino da porta alí, inofensivo, tão pequeno. Ergueu-o e sentiu vívido o pingo gelado da chuva e o cheiro putrefeito do rio Pinheiros. Ela sorriu como criança e correu como criança, como a fábula que ouvira, como o filme ou como aquilo que ela nunca fora. Ao encontro do mendigo, empinou pipa no meio da marginal frente aos olhos dos desesperados. Embora o mendigo não falasse uma palavra sequer ela sentia o sorriso contido dele. Ambos saíram correndo em meios aos carros e a pipa pairava soberana por cima de todos, dançando e dando voltas como um espírito brincalhão.
Ela foi embora a pé, chegou em casa, tomou um banho e decidiu escrever. Passou dias, sobre o mesmo efeito, escrevendo com obsessão sobre as amarras da vida, sobre as mensagens ocultas que devemos ler, sobre a condição humana, sobre a tristeza e a felicidade, sobre quem somos, sobre a edificação da nossa personalidade. Refutou teóricos, abandonou técnicas e criou seu próprio código de conduta. Talvez tivesse escrito mais se soubesse que naquele mesmo dia, muitas pessoas morreram na marginal impossibilitadas sair dos seus carros, ou não queriam, ou foram impedidos de avançar pela enorme quantidade de carros abandonados na pista.
Seu consultório não tinha mais a ornamentação de antes, suas pacientes da casse média paulistana se encantavam cada dia mais com esta nova forma de ver o mundo. Sem perceber a infeliz mulher transbordava de prazer impelindo as pessoas pelos caminhos que ela nunca teve coragem de seguir. Muitas dessas também abdicaram da vida confortável e se lançaram de cabeça no mundo. Seus dias de escrita renderam livros, best-sellers, durante anos os mais vendidos em todo país e em questão de tempo sua doutrina era traduzida e ganhava adeptos no mundo inteiro
Sem perceber, esta mulher, ou aquele mendigo transformaram o modo de pensar de uma geração de pessoas. Fazendo-as experimentar a vida em todas suas intensidades e vertentes. Seguidores e continuadores desta doutrina perpetuam até hoje estes princípios. Após sua morte, repentina por pneumonia, seu nome foi reconhecido. Ganhou prêmios e sua imensa fortuna foi doada a fundações destinadas a prosperar a vida livre.
Muitos historiadores, sociólogos e filósofos denotam àquela mulher uma nova fase histórica de humanismo contemporâneo refletido no modo de consumo, na economia e nas políticas públicas da sociedade. Outros, recentemente tem destacado a história de vida daquela mulher pontuando-a como infeliz e manipuladora. Estes consideram-na como uma escritora de auto-ajuda para mentes frágeis e passíveis de manipulação. Dentre seus oponentes, o famoso sociólogo José Antônio ficou mundialmente conhecido por expor a todos as verdadeiras faces daquela mulher. Por convencer com uma vivacidade a construção ideológica como filha da história de vida dos seres humanos. José Antônio usava sua própria vida para justificar a teoria. Tivera uma infância dura e indiferente e sozinho teve de galgar o mundo, conhecendo a duras penas e sendo um resultado disso. O que ninguém sabia e tampouco descobriram era que José Antônio era filho daquela mulher. A qual ele preferia chamar de a-mulher-que-não-conseguia-se-entender.

O lado de dentro...sublime

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