Manifesto à memória para uma nova relação de consumo Nos dias de hoje em que a soberania do estado se confunde com a hegemonia das corporações. Em que países africanos e sulamericanos mesmo juntando sua renda não alcançam o faturamento de multinacionais. Nos dias de hoje em que não vivemos mais sobre o assombro bipolar entre o pseudo-socialismo-pragmatista e o germe-de-capitalismo-individualizado; onde há certezas consolidadas sobre o modo como funcionamos em sociedade ocidental. Certezas de onde nossos progressos nos carregaram, e o custo desse progresso nos escapa aos olhos. Nossas revoluções tecnológicas nos impeliram a uma evolução que mecanizou o campo, automatizou a indústria, informatizou os serviços e despejou milhões de pessoas à vala comum dos que não têm o que fazer, ou nem sabem, ou sequer conseguem. Nos dias de hoje, onde as esperanças de igualdade minguam e a culpa recai nos fracos despejados cuja própria incompetência não os permitem ser e ter mais do que têm. Nos dias de hoje em que a ausência de conflitos globais causam uma arrebatadora sensação de segurança e uma mutiladora passividade, é nesses dias que o ser humano entra em crise. Aqueles que nada têm anseiam por alguém que os mostre o caminho de uma vida possível. Aqueles que têm acesso aos bens de serviços e comunicação desfilam no facebook, twitter e afins suas opiniões introjetadas e estereotipadas integrando o exército da “Geração Tamagoshi”. Aqueles que muito tem, jamais entenderão o quanto R$100 faz diferença na vida de uma família que foi despejada da sociedade. A crise do homem que habita entre os sem nada, os passivos tamagoshis, os utópicos pensadores, e os que podem porque “têm” exige uma diferenciação. Precisamos reaver o embate sobre nossa própria condição, sobre como incorporamos o discurso acrítico e somos perversamente engolidos para o conforto do individualismo sem diálogo. Temos de inaugurar uma nova forma de olhar para as coisas. Se a sociedade de hoje nos diz que somos nós os empreendedores de nós mesmos, de modo que se falhamos é porque não somos bons o suficiente e se ganhamos dinheiro somos mais adaptados do que outrém. Se nos dias de hoje o capitalismo reside na esfera individual, no micro e no macro, temos que subvertê-lo onde nos é possível para que ao menos se enfraqueça essa marcha de corporações que se fundem e se fundem e se fundem até serem inimaginavelmente poderosas e continuarem aumentando a distancia entre os tipos de seres humanos nesse mundo. Se é nossa a responsabilidade do empreendimento que seja nossa a responsabilidade a de pensar no outro, no oprimido. Esqueçamos as “ações sociais” das grandes empresas. Esqueçamos por ora a falsa democracia que leva perversamente a sensação de poder escolher enquanto as verdadeiras decisões que subjazem a vida estão nas esferas econômicas. Esqueçamos partidos políticos, associações mercantis, conselhos de bairro, programas de tv, cerimonias religiosas e revistas de personalidade. Tentemos pensar no que nós detentores de tanto poder podemos fazer com ele algo incômodo. Uma das muitas coisas que podemos fazer em nossa humilde escala individual está na memória. Precisamos lembrar melhor. Lembrar que temos sim poder, pois no mundo de hoje quem compra tem poder. No estado do Amazonas, por conta da grande rivalidade entre as tradições folclóricas do Garantido e Caprichoso, o modo de consumo de refrigerante foi modificado. Assim, quem é garantido, representado pela cor vermelha, só toma coca-cola e quem é caprichoso, azul, só toma pepsi. Em pouco tempo as duas marcas de refrigerante lançaram suas latinhas na cor contraria. Coca-cola azul e pepsi vermelha. As marcas se transformaram para sobreviver às alterações daqueles que às mantêm vivas. Há um poder de subversão na consciência de que aconteça o que acontecer, quem deseja continuar ganhando tentará de todas as formas fazê-lo. Acontece, entretanto uma curiosidade perturbadora aqui. A própria população que foi postas a margem pelo novo padrão de produção global, é a que cresce cada vez mais e que não têm condição de comprar uma coca-cola ou uma pepsi e acaba comprando outro produto muito mais em conta. A massa de marginalizados cresce tanto que junta tem um poder de consumo muito grande e a oferta de produtos mais baratos ou genérico aumenta, o que põe em crise a própria industria, que por sua vezes sobretaxará o preço de seu produto. Notar esse movimento é poder alterar os rumos das coisas e para isso é preciso memória. Cotidianamente vemos notícias envolvendo grandes grupos e empresários. Nossa moral executa o julgamento, mas não transfere na escala macro essa execução. Transferir é deixar de consumir determinados produtos. Isso está ao nosso alcance. Lembremos das coisas e alteremos nosso modo de consumo para que possamos sim afetar àqueles que nos afetam. Prescindimos de memória para lembrar. Lembremos que o Sr Daniel Dantas, acusado de grandes golpes financeiros em nosso país é envolvido diretamente na compra da Brasil Telecom e do grupo OI e que ter um celular, ou chip, ou linha ou ouvir a radio OI é compactuar desses golpes. Lembremos que o Sr Constantino, dono da viação Cometa e Cia aerea Gol é acusado de assassinato e que enquanto você se espreme em seus aviões ou corre risco em seus ônibus, negociações sombrias acontecem com sua arrecadação para a conta deste homem. Lembremos que uma terceirizada da Nike foi fechada por implantar mão de obra infantil chinesa em sua confecção, e que seu bem pago conforto nos pés não deveria lhe fazer tanto conforto assim. Lembremos que o grupo globo e o grupo abril de comunicações reconheceram publicamente com suas desculpas a interferência direta no futuro do Brasil ao bancarem e ajudarem a eleger o presidente Fernando Collor de Mello, e tomemos também com muita atenção a prova empírica de que em um país onde os maiores índices de audiência são com novelas, futebol e reality-shows, de fato a mídia pode inculcar o que pretende à população. Lembremos e façamos dessa lembrança uma ação palpável. Lembremos, ademais que já seria justificável a negação de todo bem industrializado de consumo pela própria natureza perversa daqueles que produzem. O radicalismo oriundo desta lembrança levou a guerrilhas e armas de fogo e não barrou seu avanço. Por isso, é hora de lembrar. E lembrar é um ato de consciência e que essa pode ser uma ferramenta de transformação. Lembrar que há sim poder em onde você destina seu dinheiro; que existem cooperativas de pequenos produtores que oferecem bons leites e derivados, hortaliças e frutas, e que você pode não colaborar com o enriquecimento das nestlês, batavos e parmalats com suas vacas geneticamente modificadas; lembrar que podemos sem muito esforço perceber que uma máquina que tritura fruta e sai suco, ou determinadas roupas, ou panificadoras turbo, ou iluminadores ambiente com 6589 cores, ou aparelhos 7 em 1 de ginástica não são coisas imprescindíveis para nossa vida. Alterar esses padrões é implicar uma consciência um pouquinho menos passiva nesse mundo dos dias de hoje. E os dias de hoje necessitam de pessoas mais indócis. |
Cada vez que recruto minhas loucuras, viagens e anseios com a experiência de qualquer coisa que não tenho, extraio disso uma destilação surreal. Escrevendo, sublimo essa coisa pelo ralo. A vagar por bueiros, ela encontra todo tipo de destilados da cidade, dos santos aos psicopatas. A amálgama humana se mistura, formando o mais intenso e real do pensamento e vai à superfície buscar as narinas dos transeuntes, mas são retidas pelas tampas dos bueiros que friamente censuram o regresso das idéias.
Bueiros paulistanos inspiram vozes destiladas..
22 de fevereiro de 2011
A Máquina
7 de fevereiro de 2011
Bem vindo ao meu mundo!
- Welcome to my word! Bienvenido a mi mundo! Bienvenue dans mon monde! bem vindo ao meu mundo!
Carlos era um cara feio. Mas feio mesmo, vergonhosamente feio, mas não burro. Nunca fora, diga-se de passagem. Era autodidata, aprendeu línguas, filosofia, sociologia, antropologia...gostava de história, política e, embora nunca se enveredasse em bares e ambientes de discussão profícua tinha muitas idéias e opiniões a cerca das coisas. Quase que uma reafirmação darwiniana, sabemos no nosso íntimo que as pessoas feias, muito feias, acabam por correndo à margem na vida social. A história que não nos deixe mentir com os sacrifícios espartanos, ou o imaginário coletivo contido no patinho feio, o corcunda de Notre Dame ou o Slot. Carlos, aliás, já teve estes apelidos ao longo de sua adolescência. Ele tinha sim uns lábios tortos assim como os dentes de cima, era semi calvo aos 15 anos, muitas espinhas, uma magreza esquálida, um olho semicerrado...ainda assim sabia com anos de prática esconder os dentes tortos quando necessário, desenvergar a sobrancelha e olhar olho a olho com para as pessoas. Mas a vida em nossa cultura é dura para os feios. E nessa reminiscência primitiva da natureza humana Carlos foi um menino só...muito feio, muito sabido ...e muito só.
Por vez ou outra Carlos sentia um desconforto com o mundo, um ódio contido contra aqueles que o acometiam, com os produtos de beleza, com os desfiles de moda ou às propagandas que via. Fora suspenso certo dia da escola por emitir os mais absurdos impropérios à uma jovem que queria ser aeromoça. Naquela época, algumas profissões eram escolhidas tipicamente pelo porte físico das pessoas...e claro que Carlos indignava-se com tamanho grau de insanidade...hoje sabemos que isso continua, mas como o mundo é um tanto quanto burro, perpetuou espécies de feios pela pobreza e em qualquer lugar se encontra feios.
Um dia, porém, Carlos teve uma experiência que mudou sua vida. Foi visitar o tio em Minas Gerais. Mas não pense que foi em Minas que as coisas mudaram, aliás como diria o mineiro Guimarães, a mudança não estava na partida nem no destino, e sim na travessia. Ao chegar no aeroporto Carlos sentiu uma brisa confortante. Infinitas pessoas, desconhecidas, saindo de algum lugar e chegando a outro...pessoas perdidas em suas vidas, era a solidão coletiva. Carlos se afeiçoava a essa idéia, sentia-se bem em meio a tanto nada, uma espécie de purgatório onde todos passam e ninguém deseja ficar, mas a vida de Carlos era um purgatório. Aquele se tornou o mundo dele. Após voltar de Minas arrumou uma roupa boa, pôs em prática suas técnicas de esconder os dentes de desentortar os olhos, com seus idiomas fluentes passou facilmente para trabalhar como caixa do McDonalds e ali se tornou anarquista de fato. Além dos livros na estante. Saiu de casa, passou a morar no mundo dele, entre a ASA D e a ASA E. Ganhava ali, comia ali (não na lanchonete a qual tinha certo asco) dormia ali junto com os pernoites por acidente.
No trabalho fazia sua militância política. Na madrugada as pessoas de todas as partes do mundo que desembarcam e têm fome vão procurar algo mais próximo de sua realidade. E nada como uma rede mundial de fast-food para atrair os corpos inseguros e deixá-los como se estivessem em casa. E bem nessa hora, quando se sentiam-se seguras, as pessoas tomavam um susto existencial. BEM VINDO AO MEU MUNDO! Dizia Carlos nos mais diferentes idiomas, alegre e com o sorriso estampado, serelepe e horripilante de quem fere uma alma desatenta. Ele sabia de sua feiura á flor da pele e sorria mais, como se dissesse àqueles comedores mundiais de hamburgueres.....veja como meu mundo é feio!..perceba a feiura do meu mundo! Não se iluda com seus tênis, seus vestidos e suas milhas aéreas...você é turista? Veio ver coisas bonitas? Então está aqui o meu cartão de visitas!
Longe do olhar do gerente, que nunca olha de frente seus funcionários, assim como as câmeras que sempre vêm de dentro pra fora...Carlos estava dentro, infiltrado em meio a jovens buscando alguns trocados para irem ao McDonalds no fim de semana com suas paqueras...quem via de fora o via e se assustava. Vez ou outra esbaldava-se de felicidade quando percebia deixarem de comer seus lanches após pegá-los de suas mãos com afastamento ... sorria pela alma. Aquele era seu mundo e no seu mundo ele era o presidente anárquico e cidadão cosmopolita, ele ria como quem ria dele quando jovem. Ele era a ânsia do mundo dos outros. Um toque de realidade ao universo distante das valises ambulantes. Bem vindos ao mundo!!!
21 de janeiro de 2011
Receita para esquecer um grande amor
[17:52] Vitor diz:
Receita! Eu tenho, quer testar?
[17:52] Ela diz:
Eu quero, manda!
[17:52] Vitor diz:
Papel e caneta na mão
[17:52] Ela diz:
Ta na mão!
[17:52] Vitor diz:
Passo 1:
Pense na pessoa que quer esquecer com todas as coisas boas dela e teste até quanto seus sentimentos te levam a um grande vazio. Faça isso todos os dias com regularidade. De manhã, de tarde e a noite, por no mínimo 3 semanas. Se quiser anote em um papel e leve consigo uma lista das coisas boas que viveram, das qualidades da pessoa que um dia você gostou, admirou e exaltou.
Quando você começar a sentir que essas coisas todas que você lembrou durante este tempo são da pessoa ....claro pois você só lembrou porque pensou nela...mas NÃO SÓ dela e sim de você, pois foi você que lembrou e, sim das outras pessoas, pois elas podem ver as mesmas coisas. Aí você pode ir ao passo 2, mas tem de se obrigar a lembrar todos os dias por no mínimo 3 semanas. 3 vezes ao dia, são 21 vezes na semana, e 63 vezes de lembranças das coisas boas neste período.
Passo 2:
Guarde o papel de coisas boas que foi rascunhado na sua cabeça e faça o mesmo com as coisas que te incomodavam. Situações que você detestou aquela pessoa e os motivos pelos quais você teve asco. As coisas que você odiava, que te irritavam, que mexiam de forma ruim com você. Anote, leve na bolsa e a posologia será diferente. Sempre que você insistir em ver a pessoa como mais especial que sua própria natureza humana e social lhe implica, tire da carteira e lembre daquela situação ruim que essa pessoa “especial” lhe causou.
Se você tiver feito o passo 1 corretamente não será necessário o passo 2, mas mantenha-se firme. Independente do passo 2 ser necessário ou não há algo a ser feito que podemos chamar de passo “3 em diante” ou passo “3 para sempre”.
Passo 3 para sempre:
Sair com todos amigos e amigas que julgar serem seus amigos e amigas e conhecer os amigos de amigos e amigas que puder conhecer. Descubra todas as pessoas novas e tente reparar se há nelas qualidades e defeitos das suas listas anteriores (que a esta altura você deve saber decor). Nunca recuse convites de amigos e amigas ..... essas pessoas querem te ver por perto quando te convidam. Faça uma terceira lista das pessoas que você admira em QUALQUER pessoa e porque as admira. Pergunte as pessoas que admira se existem outras pessoas que não gostam delas e o porque. Você verá que, paradoxalmente, as pessoas que admira também são odiadas por outrem.
Após esse processo de conhecimento das pessoas espero que você perceba que o mundo é grande e que as coisas especiais não são eternas nem são sempre tão especiais quanto você julgou um dia.
E que de fato você NÃO deveria querer esquecer ninguém de sua vida e sim guardá-las delicadamente no olimpo dos seus pensamentos. As coisas boas que você viveu, e as ruins também, porque não? Afinal elas te fazem crescer.
Mas principalmente, espero que após os passos você perceba que não precisa de passo nenhum pra esquecer ninguém. Há muito o que viver e viver é uma experiência humana repleta de desacertos e felicidades e que enquanto o tempo correr e você estiver nele está se comprometendo a ir pra frente...... pois as coisas acontecem quando guardamos nosso aprendizado e não quando tentamos esquecer. Embora seja verdade que se esforçar pra lembrar de algo é bem perto de tentar esquecer....é também verdade que tentar esquecer a todo custo é uma forma de trazer a memória pra mais perto.
Esquecer é um ato antinatural. Nossa memória é assim, funciona pra lembrar.....melhor que qualquer esforço de esquecer é o esforço de viver.
[18:07] Ela diz:
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11 de janeiro de 2011
Quem é rebelde afinal? Jesus?
Era uma cidade pequena, até aí tudo bem, observemos bem. Mas em Medópolis tinha-se a sensação de olhos e ouvidos espelhados em cada poste. As pessoas tinham todos os dias na padaria, na igreja ou no ponto de taxi as mais diferentes e inusitadas histórias dos moradores daquele distrito. Não sei bem se tratavam-se de fatos ou falácias de um povo provinciano sem muito o que discutir senão os acontecimentos diminutos da vida dos outros. Mas devo dizer que muito ali era de certa forma verdade. Falo isso pois conheci Gabriel.
Por um desses encontros e desencontros do acaso Gabriel fora parar em Medópolis. Parte de sua educação advinha das escolas alternativas, vestia-se de um jeito peculiar, não acreditava em deus, e como se não bastasse usava camisas com dizeres do tipo “vai se fuder você que está lendo”. Tinha um gosto musical diferente, e certa proximidade com narcóticos, nicóticos e alcoóis. Bastou Gabriel chegar a cidade para se tornar conhecido. Um estranho ao modo de vida ali estabelecido. Fora tomado como rebelde pelas cercanias. Agora o que muitos não sabiam era que de rebelde Gabriel não tinha nada, era fruto de uma educação, era diferente talvez, hábitos diferentes, estilo diferente. Mas comprava coturnos como outros compram tênis e sandálias. Comprava pinga como outros compram vinho e cerveja. Comprava CDs das músicas favoritas como os outros faziam. Comprava como os outros compram, nada de diferente amigo leitor. De anjo ele não tinha nada, pelo menos que justificasse o anjo decaído. rs. E embora fosse repleto de discurso, tinha uma boa vida e certo desfrute dela. E sem notar pisava em seu discurso como uma criança aprendendo a andar.
Mas se fosse só isso estaria tudo bem, as pessoas achariam que aquele adolescente era rebelde, ele saberia que não era, era parte do mundo e vivia sob as mesmas regras sem infringi-las. Problema é que o adolescente Gabriel achou-se de fato alguém rebelde. Se achou em condições de persuadir pessoas áquilo cuja própria consciência frágil não acreditava. E como fizera Jesus milênios antes tornou-se um pregador às mentes acomodadas, entediadas e ansiosas por novidade. E assim como nosso rebelde Inri conseguiu ser ouvido, ganhou amigos, status e seguidores, por assim dizer. E se me permitem a continuação desta comparação, ambos falavam sobre aquilo que somente eles achavam correto. Claramente uma postura até certo ponto egocêntrica, mas aí sim uma grande diferença entre os dois: a benevolência? Os milagres? A cruz? Não, a única diferença entre os dois é que um veio depois do outro.
E Medópolis tinha olhos atentos, eram os olhos de cristo estampados na torre da igreja e nas pupilas dos transeuntes. E aquele garoto mimado só podia ser considerado um rebelde. Agora um rebelde com seguidores, é verdade. Mas como qualquer garoto mimado quando se excede a cota que o ego é capaz de suportar, a sensação de possuir as verdades se transforma na soberba da razão. Imagine, pois, um adolescente como Gabriel conseguir coisas por meio de suas palavras. E conseguiu, muitas coisas boas, já que qualquer diferença ali podia ser considerada benévola. Coisas ruins também, as mesmas aliás, vista por olhos de uns ou de outros. Mas da mesma forma que chegou Gabriel foi embora, deixou um legado no jeito das pessoas e na sensação de alívio das mães carmelitas.
Gabriel nunca fora rebelde, Jesus nunca fora rebelde, não subverteram regra nenhuma, eram mimados e diferentes e o diferente choca. O que os tornou um ou outro foram os olhos que os viram, a quantidade de seguidores e do que eles eram capazes. Simples, da próxima vez que encontrar alguém muito diferente que se julgar rebelde, lembre-se que ele pode ser mimado. Quem é rebelde afinal? O diferente em que sentido, quem subverte as regras ou que as usa para se benefício? Quem vive no mundo e tenta mudá-lo ou quem se mantem parado enquanto o mundo se transforma? Quem esta parado neste caso? Os olhos? Jesus? Gabriel? Eu? Você? É hora de repensarmos a rebeldia. O que você acha?
***texto da coluna de Janeiro na revista O que?***
10 de dezembro de 2010
DCC - uma nova forma de criação




8 de dezembro de 2010
Feliz natal Jean (o que você acha?)
19 de novembro de 2010
A história de um coração bom
Era um coração bom, de uma pessoa que gostava de fazer bom uso dele. Uma pessoa normal, afeiçoada às paixões. Um coração desses, mesmo pequeno, trabalhava bastante. Era um coração vermelho estampado em pele morena, muito bem guardado na dobra entre o quadril e a perna, num lugar quente e acolhedor, morando ao lado do sexo. Quando ela andava o coração pulsava e em noites de frêmito o coração suava. Há quem pense ser este um conflito constante para aquele bom coração. O amor e o sexo podiam caminhar lado a lado? Eram vizinhos, dividiam o mesmo corpo, mas não dividiam as mesmas coisas. A dona daquele coração bom parecia mergulhada em conflito, como a própria estampa de seu corpo estampava também sua cabeça. Talvez fosse isso o que a tornava exposta, frágil e dona de um bom coração.
Um dia seu coração lhe apontou um homem bom. Um homem que sua intuição conferiu a possibilidade de se entregar. E quando um coração bom se entrega as coisas são boas, fluidas. Aquele homem cuja parte sobre o coração escapava a muito, não se sentia responsável pelo que cativava. Mas um bom coração bom que se entrega se aperta mais, se espreme, quer ter dono, deseja ardentemente que o tomem e o ninem como criança. E ele queria sim, sentiu que podia ter seu dono. Uma ingenuidade de um coração bom que se movimenta bem. Todas as pulsações dele eram fortes, vorazes e a cada dia que passava aquele homem se sentia cada vez menos capacitado para assumir um fardo que ele não achava justo, tomar conta de um coração bom.
Cada vez mais desamparado aquele coração recorreu a algo que nunca antes recorrera. Como que em instinto de mulher o coração resolveu ser mais vaidoso. Produzia-se todo aquele corpo de mulher, buscava o plástico, o lábio bicolor, os pelos retirados, o perfume que escondia o cheiro de libido que aquele coração bebia todos os dias no calor da virilha. Mas foi um ledo engano, não era isso que tornaria aquele homem encorajado a niná-lo. Nem aquele homem sabia ao certo o que fazer. Sabia sim, de uma coisa. Não podia ser dono de nada, nem de nenhum coração. O que podia fazer era regá-lo de bons sentimentos, mas ele se assustava acima de tudo.
Como se tivesse demorando, a dona daquele coração bom mergulhou de novo no seu conflito. Seu coração se consumia em cada atrito, arfava, adorava se viciava em longas horas exposto ao ar, ao sal e á pele. Isso movia a dona daquele coração a cada vez mais se embelezar. Ao mesmo tempo aquele frágil coração se sentia desamparado, mas culpado sobretudo por um dia ter expectativas demais. Isso movia a dona daquele coração bom a ter medo, se recuar, chorar, insegurar-se. Aquela definitivamente não era uma situação boa a qual um bom coração deveria passar. De fato o conflito só podia ser resolvido com uma decisão. O coração bom decidiu se embelezar, suprimir a insegurança e substituí-la por adornos de beleza.
Uma linda mulher em dia de banho, espantando seus fantasmas pelo ralo do box num sábado de calor. Ela estava com aquele corpo a mostra de si mesma. Num preciosismo de vaidade entretanto a gilete que cortava sua virilha lhe cortou o coração. O que ela queria com aquilo, antes de se ferir? Queria que apenas afagar seu coração bom com um colo e um calor que só dois corpos podem dar. Queira se convencer do que escolhera, mas se feriu. Queria suprimir sua razão, mas se feriu pela escolha exata que fez. Naquele dia seu coração chorou sangue escorrendo pelas pernas, ferido a próprio punho e à própria escolha. Aquele choro se espalhou e aquela mulher tão linda a ponto de espalhar sofrimento se derramou. Enquanto aplicava o curativo decidiu se curar. Saiu à rua sob outros ventos.
16 de novembro de 2010
É preciso defender os fortes dos fracassados
- Sabe, outro dia ouvi um cara me falando sobre a sociedade socialista, sobre a igualdade de condições, sobre o dinheiro. Tenho certeza de que essa pessoa não sabe o que é paz de espírito. Nem deve acreditar em espírito, não se conheceu ainda, não sabe da onde vêm suas dores e por que ele ri. Nem entende por que as pessoas morrem nem a dor de uma perda. Esse cara pensa antes, prevê, discursa, contabiliza, tipo cientista, entende? Argumenta bem pra te convencer de algo ou em quem votar. O pôr do sol deve ser uma bola girando em volta de outra que ele nem sabe por que está lá, mas acredita nisso. E sabe do pior? Esses caras assim, não socialistas ou o caralho que for, esses caras de branco que olham sua língua e falam o que você tem, esses caras que sentam na sua frente, te ouvem e dizem do que você precisa, esses caras que compram calças, camisas, dão presentes, se maqueiam, juntam dinheiro pra comprar uma casa, sabe? Sua mãe deve ser assim, um desses caras. E você sabia que são esses caras que olham pra gente? São eles que botam os olhos na sua porta, eles que conversam com você sem prestar atenção no que você fala. Eles lá fora que dizem que um homem não pode desejar sua mãe, ou sua irmã, ou matar alguém, ou pegar algo que ele não tem... É foda isso, não? Você não acha? Aí eles que falam o que é certo e errado, sei lá de onde eles tiraram isso. Deve ser dos gregos, tudo tem coisa lá. Teatro, filosofia, olimpíada, é tudo invenção deles... Eles que devem ter inventado essas coisas pras pessoas pensarem e dizerem que estão certas umas pra outras. Eu fico pensando, se os gregos inventaram isso, os inimigos deles... tipo, os persas... devem ter inventado o sofrimento, ou o pôr do sol, ou o amor... pra fazer eles sofrerem eternamente. E, enquanto eles pensam de dia, sofrem de noite, vai comendo por dentro, entende?
- A gente é filho de grego.
- É, e de persa também, mas amor não ganha guerra, Gilberto. Ganha guerra quem vence...e quem vence é quem mata mais....e olha só que esses gregos também são meio estranhos porque aí quem mata mais ganha e, na rua, quem mata mais, perde. A guerra deve ser o mundo de cabeça pra baixo. Se a gente estivesse em guerra, talvez nós estaríamos lá fora. E o pior é que nós estamos mesmo e eles acham que não.
- Lá fora ou em guerra?
- Os dois, Gilberto, os dois
Daniel deixou o banco e entrou em seu quarto. Logo o enfermeiro veio lhe trazer o comprimido diário. Gilberto estava quieto, pensando profundamente nas coisas que Daniel lhe dissera. Olhos bem abertos, fixos em um ponto qualquer do infinito de sua mente. O enfermeiro olhou, passou a mão na frente do seu rosto e saiu.
A noite vinha como um silêncio fúnebre, os quartos do hospital psiquiátrico eram silenciosos, mas pungiam de milhares de vozes gritando em cada cabeça deitada no travesseiro. Pensando sobre o mundo, sobre a essência da vida, sobre o sentido da evolução, sobre o cosmo, ou o significado do universo, sobre deus. Essas vozes se perdiam no espaço invisível existente na fumaça de um cigarro ou nas vibrações inertes das paredes. Muitas conclusões sobre o mundo surgiam todos os dias, Daniel, Gilberto, Clara, Nunes, Petrônio, Nadja, Paul, Luis, Pablo, João, Raul, Elis... Todos, em seus quartos, pungiam de pensamentos, de significados sentidos para tudo.
Longe dali, o conhecimento era produzido em artigos, discutido em bares, pessoas elaboravam experimentos, olhavam através de microscópios, caçavam barcos que caçavam baleias que caçavam focas que caçavam peixes que caçavam algas que caçavam luz. Ideologias trituradas nos arpões, projetos de nação, método, ciência e livros de auto-ajuda. Nenhum deles chegava aos pés de qualquer significativa conclusão como os outros. E, entretanto, volta e meia eram acometidos por uma estranha sensação de falta, de vazio, de inconclusão. Uma inquietude triturante, que fazia o caçador desejar ardentemente ser uma baleia e nadar tranquilo nas algas, sem dar pedaços de papel para comer seu peixe. Era um vazio que o enfermeiro de plantão não entendia, suas lágrimas corriam por sua cabeça deitada. Ele não entendia, queria, mas não conseguia, seu filho chegou bêbado e ele não sabe por que o garoto se sente tão bem bebendo... Acha errado e sofre uma angústia interminável. O cara de branco atrás do microscópio chegou em casa e sua mulher não estava mais lá. Se ele entendesse mesmo o amor não estaria agora a caminho do fim. E lembrou dos ratinhos que se reproduziam tão rápido para suprir os testes. Ele quis ser um rato naquele momento para não entender o sentido de uma perda tão grande.
Na rua, as almas se encontravam e riam e brincavam e liam jornais, viam novela, desejavam um vestido ou um carro. Davam dinheiro à igreja e, entretanto, pareciam tremendo de medo e de frio. E mesmo parecendo frio esse lugar onde as pessoas vivem, ao passar por um mendigo cantando e dançando do alto de sua realeza sem a menor preocupação, as pessoas se afastam. O mais racionalista filosófico dirá que Nietzsche havia alertado que precisamos defender os fortes dos fracassados, mesmo assim chorará por ver Gaia tão distante. Esses caras pensam no fundo de suas cabeças: a que ponto pode chega o ser humano. Que estado de degradação. Talvez esse louco devesse ser internado, desintoxicado, mas com certeza sair daqui.
Talvez esse louco deva se encontrar com Daniel, Gilberto, Clara, Nunes, Petrônio, Nadja, Paul, Luis, Pablo, João, Raul, Elis e outros tantos e tantos e tantos cujas preocupações não são a de um rato nem a de uma baleia, nem a de “um desses caras”. E o que separa o quente universo fervoroso daqui do frio, distante e incompreensível mundo de lá, o mundo do conhecimento, é exatamente o conhecimento da incompreensão e a falta de compreensão do conhecimento. Uns riem, outros choram. Como nas tragédias gregas, na trágica filosofia do certo e do errado.
Os persas foram mais bem sucedidos. Lá fora todos sofrem. Sofre a moça que deseja outro vestido assim que passa pela vitrine seguinte. Sofre o cientista quando esbarra nos limites da explicação. Sofre o jovem que acaba de passar no vestibular e não sabe por que está sentado naqueles bancos centenários. Sofre o muleque da favela que sempre quis fazer faculdade de Direito. Sofre o patrão quando roubam seu 4x4 blindado. Sofre o pobre quando deseja, em silêncio, trocar o ônibus capenga pelo carro do ano. Até o mendigo, do alto de sua realeza, carrega as marcas daquilo que sofreu para abandonar esse mundo de falsas compreensões e convenções frágeis. Sofre esse que vos escreve, enquanto racionaliza isso tudo no papel. Aqui dentro, Daniel, Gilberto, Clara, Nunes, Petrônio, Nadja, Paul, Luis, Pablo, João, Raul, Elis produzem seus conhecimentos, efervescem, sorriem e quando errados nem sabem o que é o erro. Vivemos mais que todos a liberdade dos que mais pensam e não vivem.
3 de novembro de 2010
O lado de dentro...sublime